Inflação em Brasília supera a média nacional em maio: batata disparou 38%, tomate 10% e conta de luz não para de subir

IBGE divulgou ontem os dados do IPCA de maio — e o brasiliense saiu perdendo: inflação de 0,63% na capital ficou acima dos 0,58% registrados no país. No acumulado do ano, os preços já sobem 2,52% no DF. Oito dos nove grupos pesquisados registraram alta

A feira ficou mais cara. O supermercado ficou mais caro. A conta de luz ficou mais cara. E quem mora em Brasília sentiu tudo isso um pouco mais do que o restante do Brasil em maio. Os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgados ontem (12/6) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a inflação na capital federal acelerou em maio e ficou acima da média nacional — e os vilões do bolso do brasiliense têm nomes conhecidos: batata, tomate, energia elétrica e transporte.

A inflação em Brasília acelerou em maio e alcançou 0,63%, resultado que ficou 0,47 ponto percentual acima do registrado em abril, quando a variação havia sido de 0,16%, e também superou a média nacional de 0,58%. Com esse resultado, o IPCA em Brasília acumula alta de 4,11% nos últimos 12 meses.

No cenário nacional, o quadro também não é animador: o IPCA de maio fez com que o índice voltasse a ultrapassar o teto da meta perseguida pelo Banco Central, que é de 3%, com tolerância até 4,50%. O resultado de maio veio acima da estimativa do mercado financeiro, que esperava alta de 0,48%

Oito em nove grupos subiram — o que caiu foi pouca coisa

A amplitude da inflação de maio impressiona. Entre os nove grupos de produtos e serviços pesquisados pelo IBGE em Brasília, oito registraram aumento de preços em maio. Em outras palavras: praticamente tudo ficou mais caro para o brasiliense no mês passado.

Apenas alguns itens específicos apresentaram recuo de preço — e foram exceções pontuais numa maré de altas. Os principais recuos foram registrados no chã de dentro, com redução de 2,71%, na banana-d'água, que caiu 6,84%, e no açúcar cristal, com queda de 5,74%. Banana e açúcar mais baratos não compensam, nem de longe, batata 38% mais cara. 

O campeão das altas: alimentação e bebidas

O grupo que mais pesou no bolso do brasiliense em maio foi, de longe, o de alimentação e bebidas. O grupo avançou 1,36% no mês e respondeu por 0,24 ponto percentual do resultado geral. No acumulado de 2026, os preços desse grupo já subiram 3,41% em Brasília. 

No cenário nacional, o dado é ainda mais impactante: a alta de 1,33% em alimentação e bebidas no Brasil em maio de 2026 é a maior para um mês de maio desde 2015 — há mais de uma década o bolso brasileiro não sentia tanto peso no carrinho de compras num único mês de maio.

Os vilões específicos dentro desse grupo são bem concretos:

Batata-inglesa: +38,79% — o item com maior alta individual em Brasília no mês. Quem costuma fazer batata frita, purê ou sopa sentiu o preço disparar nas gôndolas.

Tomate: +10,39% — o fruto que nunca sai da mesa do brasileiro subiu dois dígitos em maio, pressionando molhos, saladas e lanches.

Leite longa vida: +4,50% — produto básico da cesta familiar, com alta relevante para famílias com crianças.

Refeições fora de casa: +0,90% e lanches: +0,80% — quem almoça no trabalho ou come na rua também pagou mais.

O gerente do IPCA no IBGE, Fernando Gonçalves, explica que a alta dos alimentos é resultado de menor oferta de alguns produtos, pressão no preço do frete rodoviário e alta no preço dos fertilizantes — reflexo direto do conflito no Oriente Médio, que onerou o custo da produção agrícola e foi repassado ao consumidor final. 

A conta de luz que não para de crescer

O segundo grande vilão do mês foi a energia elétrica. O grupo habitação registrou alta de 1,03% em maio em Brasília, com influência direta da energia elétrica residencial, que subiu 3,45% e foi o principal impacto individual dentro desse grupo. 

No cenário nacional, o dado é ainda mais expressivo: o subitem energia elétrica residencial avançou 3,67% e teve o maior impacto individual sobre o índice geral, respondendo por 0,15 ponto percentual do IPCA. O resultado foi influenciado pela adoção da bandeira tarifária amarela ao longo do mês, que acrescentou R$ 1,885 a cada 100 quilowatts-hora consumidos. 

Para o brasiliense, que já convive com o inverno seco e o uso intensivo de aquecedores, umidificadores de ar e cobertores elétricos, a conta de luz de maio foi uma surpresa desagradável — e a bandeira tarifária deve seguir pressionando nos próximos meses.

Transporte também pesou

Quem usa transporte público ou aplicativo de mobilidade também sentiu o bolso mais apertado. O transporte por aplicativo subiu 3,87%, o ônibus urbano registrou alta de 3,41% e os custos com emplacamento e licenciamento de veículos avançaram 0,40%.

A combinação de ônibus mais caro e aplicativo mais caro coloca o brasiliense em aperto nos dois extremos do transporte urbano — seja quem depende do serviço público, seja quem usa plataformas como Uber e 99 no dia a dia.

O que diz o morador: "A gente vai apertando"

Os números frios do IBGE ganham rosto e voz nas filas dos supermercados. "A gente tem que diminuir a quantidade de produtos que vem comprando. Por exemplo, se eu comprava 1kg de tomate, agora é meio quilo. Se era 1kg de batata, agora eu compro meio também. Então a gente vai apertando um pouco mais", contou Maria, moradora de Brasília. Ela também relatou que tem deixado de comprar alguns itens por conta do preço. "Por enquanto, eu não tenho muitas expectativas de que no mês que vem os preços irão diminuir", concluiu. 

O relato de Maria resume o que os dados estatísticos às vezes não conseguem capturar: a inflação não é apenas um índice — é uma decisão diária de o que comprar, o que cortar e o que substituir.

O que esperar para os próximos meses

A perspectiva não é das mais animadoras. Casas como Barclays, JPMorgan e BNP Paribas já apostam em um juro básico no patamar de 14% ao fim de 2026. "Além da preocupação com a inflação corrente, também influenciam o fim do ciclo de corte de juros o cenário externo mais complexo e as expectativas de inflação em alta", afirmou o economista Leonardo Costa, do ASA. 

O economista Carlos Lopes, do Banco BV, aponta que, além do contínuo impacto da guerra no Oriente Médio, os dados de maio mostram pressões de demanda doméstica aquecida e problemas de oferta. Para o Bradesco, a inflação deve seguir rodando acima do limite superior da meta, de 4,5%, nos próximos meses. 

Para o fim de 2026, o mercado financeiro projeta inflação de 5,11% — bem acima do centro da meta de 3% perseguida pelo Banco Central. 

O único alívio no horizonte é o café: com expectativa de safra recorde no Brasil e tendência de queda do preço da commodity internacionalmente, o café moído já recuou 2,38% em maio e acumula queda de 12,25% em 12 meses. Pelo menos o cafezinho da manhã ficou mais barato — mesmo que o pão na padaria continue subindo.

Brasília em números — IPCA maio 2026

Inflação mensal em Brasília: 0,63% (média nacional: 0,58%)

Acumulado em 12 meses no DF: 4,11%

Acumulado no ano no DF: 2,52%

Maior alta: Batata-inglesa +38,79%

Outras altas relevantes: Tomate +10,39% | Energia elétrica +3,45% | Transporte por aplicativo +3,87% | Ônibus urbano +3,41% | Leite longa vida +4,50%

Principais quedas: Banana-d'água -6,84% | Açúcar cristal -5,74% | Chã de dentro -2,71%



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