Sexta da Saúde | O coração também torce — e pode pagar caro: como assistir ao Brasil na Copa sem colocar a saúde em risco

Estudos científicos comprovam que jogos decisivos aumentam infartos e eventos cardiovasculares. Hipertensos, diabéticos e quem tem histórico cardíaco precisam de atenção redobrada a partir de amanhã, quando o Brasil estreia contra o Marrocos. Torcer faz bem — mas com cuidado

Amanhã, às 19h, o Brasil entra em campo contra o Marrocos no MetLife Stadium, em Nova York, e milhões de brasilienses vão sentar na frente da televisão com o coração acelerado. Literalmente. Porque o que parece apenas emoção esportiva produz no organismo uma reação fisiológica real, mensurável — e para uma parcela significativa da população, potencialmente perigosa.

A Copa do Mundo, que atrai famílias e grupos reunidos em frente à TV, intensifica ansiedade, euforia e tensão durante os jogos. Emoções fortes podem agravar condições cardiovasculares em pessoas predispostas, aumentando o risco de infarto, AVC, hipertensão e arritmias. Dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) indicam que cerca de 400 mil brasileiros morrem todos os anos por problemas cardiovasculares — e a Copa, sem os devidos cuidados, pode acrescentar nomes a essa lista.

A mensagem dos especialistas, porém, não é de proibição — é de consciência. Torcer faz bem. Mas torcer com responsabilidade pode salvar vidas.

O que acontece no seu corpo quando o Brasil joga

A ciência explica o que qualquer torcedor já sentiu na pele. "Em partidas decisivas, o organismo libera uma quantidade maior de hormônios ligados ao estresse e à excitação, como adrenalina e cortisol. Esse mecanismo faz com que os batimentos cardíacos acelerem, a pressão arterial aumente e o coração demande mais oxigênio para funcionar", explica o cardiologista Eduardo Lima, do Hospital Nove de Julho.

"O organismo, às vezes, interpreta como uma situação de luta ou fuga, e se prepara para uma situação de estresse. O coração trabalha mais para bombear esse excesso de sangue e aumenta seu consumo de oxigênio. São condições que fazem o organismo se agitar e isso pode ser um gatilho para um evento cardiovascular."

Em pessoas saudáveis, essa reação é tolerada sem problemas. Mas em quem já tem doença coronariana, hipertensão mal controlada ou predisposição a arritmias, esse esforço adicional pode contribuir para uma intercorrência cardiovascular — e não é algo que se resolve com uma água gelada ou um minuto de respiração.

Os números que a ciência comprova

Não é alarmismo — é dado científico. Um estudo publicado em 2021 na revista Scientific Reports, do grupo Nature, identificou aumento nas internações por infarto durante a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil. Na Alemanha, foram registrados 18.479 casos no período do Mundial — número superior ao observado em 2013 (18.089) e em 2015 (17.794).

O caso mais dramático da história do futebol e da cardiologia aconteceu na Eurocopa de 1996. Um estudo sobre a eliminação da Holanda nos pênaltis associou o resultado a um aumento de cerca de 50% na mortalidade cardiovascular e por AVC entre homens holandeses no dia da partida.

Mais recente: uma revisão publicada em 2025 no International Journal of Innovative Technologies in Social Science reforça que partidas emocionalmente intensas podem funcionar como gatilho cardiovascular em pessoas vulneráveis. O artigo cita um estudo realizado durante a Copa de 2006 na Alemanha, que observou incidência 2,7 vezes maior de eventos cardiovasculares em dias de jogos da seleção alemã.

E no Brasil? Uma pesquisa da USP, publicada nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, identificou aumento nos registros de infarto agudo do miocárdio durante jogos da Seleção Brasileira em Copas. Dados de casa, com a nossa torcida.

Quem precisa de atenção redobrada

Segundo médicos, torcedores com hipertensão, diabetes, arritmias, colesterol alto ou histórico de infarto e AVC devem redobrar a atenção durante o torneio. Isso porque situações de estresse agudo provocam a liberação de adrenalina, elevando a pressão arterial e a frequência cardíaca.

O cardiologista Álvaro Avezum, diretor de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é direto: "Quem tem fatores de risco cardiovascular não precisa deixar de torcer, mas deve evitar que a Copa vire um período de desorganização completa da rotina de saúde. O jogo passa, mas o controle dessas condições precisa continuar todos os dias."

"Se não estiverem bem controlados, em um evento de estresse agudo, de ansiedade e de envolvimento emocional maior, vão estar mais suscetíveis", alerta o cardiologista Rodolfo Dourado.

A Copa também mexe com a cabeça

Não é só o coração que sofre — a saúde mental também entra em campo junto com a Seleção. "Torcer ativa mecanismos cerebrais ligados à identificação, pertencimento e expectativa. Em momentos de grande tensão, o organismo libera hormônios relacionados ao estresse e à excitação, o que pode aumentar a ansiedade e desencadear sintomas físicos", afirma o psiquiatra Gustavo Yamin Fernandes, do Hospital Samaritano Higienópolis.

O médico também alerta para um sinal de que a torcida cruzou um limite preocupante: "O que merece atenção é quando a torcida vira sofrimento intenso, perda de controle, agressividade, obsessão ou prejuízo na vida pessoal e no trabalho."

Se a Copa começar a parecer mais um fardo do que uma festa, é hora de rever a relação com o futebol.


Os vilões invisíveis dos dias de jogo

Além da emoção em si, há fatores que potencializam o risco cardiovascular e que são muito comuns nos dias de jogo — especialmente nos de Brasil:

O consumo excessivo de álcool, a alimentação inadequada, as noites mal dormidas e o abandono temporário dos cuidados com a saúde podem aumentar ainda mais os riscos durante o período da competição.

O álcool merece atenção especial: além de elevar a pressão arterial, pode desencadear arritmias — especialmente em quem já tem predisposição — e reduz a percepção dos sintomas de alerta, fazendo com que o torcedor ignore sinais que deveriam levá-lo imediatamente ao médico.

A combinação de feijoada, churrasco, cerveja gelada e pênaltis é deliciosa — mas para o coração, é uma tempestade perfeita.

Como torcer com segurança: 8 orientações dos especialistas

O cardiologista e presidente da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas, Cristiano Faria Pisani, orienta como os torcedores podem preparar o coração para as fortes emoções dos jogos. As recomendações são práticas e começam bem antes do apito inicial:

Mantenha os medicamentos em dia — não pule doses de anti-hipertensivos, anticoagulantes ou outros remédios de uso contínuo durante a Copa. O jogo não é motivo para interromper o tratamento.

Meça a pressão antes dos jogos — especialmente se você é hipertenso. Se estiver elevada antes do apito inicial, tome as medidas indicadas pelo seu médico.

Modere o álcool — evite excessos, especialmente combinados com alimentos gordurosos e sal em excesso.

Não torça sozinho — além de ser mais gostoso, torcer acompanhado garante que alguém possa pedir socorro em caso de emergência. Especialistas recomendam não torcer sozinho justamente para reduzir os riscos à saúde.

Durma bem nas noites antes dos jogos — a privação de sono eleva a pressão arterial e deixa o organismo mais vulnerável ao estresse emocional.

Hidrate-se — o inverno seco de Brasília já exige atenção à hidratação. Nos dias de jogo, com a emoção elevando a temperatura corporal, beba água regularmente ao longo do dia.

Cuide da alimentação no dia do jogo — prefira petiscos mais leves e evite excessos de gordura, sal e açúcar antes e durante a partida.

Trate o futebol como diversão — o cardiologista Rodolfo Dourado resume bem: "Tem que tratar o futebol como uma diversão, não como uma luta, não como uma briga, não como motivo de indisposição. Tratando como diversão, você vai usufruir do que ele lhe dá de melhor, sem colocar risco à sua saúde."

Reconheça os sinais de alerta durante o jogo

Se você ou alguém próximo apresentar qualquer um desses sintomas durante os jogos, não espere o fim da partida para agir:

Dor ou pressão no peito, que pode irradiar para o braço esquerdo, mandíbula ou costas. Falta de ar desproporcional à situação. Tontura ou desmaio. Palpitações intensas ou irregulares. Formigamento nos braços ou no rosto. Confusão mental ou dificuldade de falar.

Em caso de suspeita de infarto ou AVC, ligue imediatamente para o SAMU — 192. Em Brasília, os hospitais de referência para emergências cardiovasculares são o Hospital de Base (Asa Sul) e o Hospital Regional de Taguatinga (HRT).

Amanhã é dia de Brasil — e de cuidar do coração

O Brasil estreia amanhã (13/6) às 19h contra o Marrocos. São 90 minutos — mais eventuais acréscimos — de emoção pura. Para a maioria das pessoas, vai ser apenas uma noite inesquecível de futebol. Para uma parcela menor, pode ser a noite em que um sintoma ignorado se transforma em emergência.

Você não precisa escolher entre torcer e cuidar da saúde. Você pode — e deve — fazer os dois ao mesmo tempo.

Bora, Brasil. Com saúde. 🇧🇷💚


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