Dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 devastaram o centro-norte do país vizinho em 24 de junho — a maior tragédia natural da América Latina em décadas. O Brasil respondeu com a maior missão humanitária de sua história recente: 100 militares, hospital de campanha da Marinha, cães farejadores, 111 mil medicamentos e voos da FAB. O tremor foi sentido até em Manaus e Belém
A noite de 24 de junho de 2026 ficará marcada na história da América Latina. Às 22h04 (horário de Brasília), dois terremotos de enorme magnitude sacudiram o centro-norte da Venezuela em sequência, com intervalo de apenas 38 segundos entre si — o primeiro de magnitude 7,2, o segundo de 7,5. Em segundos, edifícios desabaram em La Guaira, Caracas, Carabobo e mais de uma dezena de estados venezuelanos. Dez dias depois, o balanço oficial já ultrapassa 2.595 mortos e 12.400 feridos — com estimativas do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) apontando para a possibilidade de até 100 mil mortes no pior cenário.
É a maior tragédia natural que a Venezuela enfrenta em mais de um século — e o Brasil respondeu com sua maior mobilização humanitária internacional das últimas décadas.
O que aconteceu: dois tremores, 38 segundos e uma devastação histórica
Segundo o USGS, o primeiro terremoto ocorreu às 22h04min33s UTC, com epicentro a 24 km a leste-nordeste de San Felipe, no estado de Yaracui, a 21,9 km de profundidade. O segundo, de magnitude 7,5, ocorreu 38 segundos depois, a apenas 10 km de profundidade — muito mais raso e, portanto, muito mais destrutivo — com epicentro a 16 km a sudoeste de Morón, no estado de Carabobo.
A combinação de dois sismos de alta magnitude em sequência, com o segundo ainda mais raso que o primeiro, criou uma força devastadora que o solo e as edificações da costa norte venezuelana simplesmente não suportaram. La Guaira, cidade costeira próxima a Caracas e onde fica o principal aeroporto internacional do país, foi o epicentro da destruição — com edifícios inteiros colapsando em segundos.
Os tremores foram sentidos em toda a Venezuela, na Colômbia — com evacuações preventivas em Bogotá e Bucaramanga — e no norte do Brasil. Em Manaus, moradores relataram sentir o tremor. Em Belém e Macapá, prédios foram evacuados preventivamente por autoridades locais. Em Belém, as autoridades agiram preventivamente e evacuaram seis prédios para inspeções técnicas, que foram concluídas sem registro de mortes, feridos ou danos estruturais.
O número que não para de crescer
O balanço desta tragédia foi se revelando em camadas — e cada atualização era mais sombria do que a anterior. No dia seguinte ao terremoto, havia centenas de mortos confirmados. Em 28 de junho, o número já havia passado de 1.450. Em 1º de julho, chegou a 2.295. No último balanço oficial, divulgado em 3 de julho pela presidente interina Delcy Rodríguez, o número de mortos confirmados chegou a 2.595, com 12.400 feridos e 12.841 pessoas desabrigadas.
Mais de 6.461 pessoas foram retiradas com vida dos escombros desde o início dos resgates. Mais de 17 mil pacientes foram atendidos pelo sistema hospitalar venezuelano. A Venezuela arrecadou mais de 707 mil toneladas de ajuda humanitária internacional — e mais de 4.000 socorristas estrangeiros de dezenas de países chegaram ao país para apoiar as buscas.
As cifras são brutais: 855 edifícios danificados, dos quais 189 colapsaram totalmente. 14.000 militares e agentes policiais mobilizados entre La Guaira e pontos críticos de Caracas. E a estimativa do USGS ainda pesa como um alerta: havia uma probabilidade de 42% de o número total de mortos ficar entre 10 mil e 100 mil pessoas.
As histórias que emocionaram o mundo
Em meio à tragédia, alguns relatos se tornaram símbolo da resistência humana. Em 29 de junho — 106 horas após os tremores —, equipes de salvamento da Venezuela, do México e de El Salvador resgataram com vida Aaron Levi, de 21 anos, em La Guaira. Ele havia ficado soterrado por mais de quatro dias. A operação de resgate durou 43 horas.
No mesmo dia, o governo venezuelano anunciou o resgate de um menor das ruínas de um edifício no setor Caribe, em La Guaira, mais de 120 horas após os sismos.
Entre as vítimas identificadas, esteve Yimvert Berroterán, jogador de 18 anos da Universidad Central de Venezuela e da Seleção Sub-17 do país, que havia participado do Torneio Maurice Revello de 2026. Seu corpo foi recuperado dos escombros de um edifício em La Guaira quase dois dias após os sismos. Também faleceu Andrea Bello, esposa do futebolista Héctor Bello.
Portugal foi o país com o maior número de vítimas estrangeiras confirmadas, com 81 mortos e 66 desaparecidos identificados pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros em 2 de julho.
Dois brasileiros entre as vítimas — e o tremor sentido em território nacional
O Ministério das Relações Exteriores brasileiro confirmou a morte de dois cidadãos brasileiros nos terremotos, prestando assistência consular aos respectivos familiares.
O impacto do terremoto em solo brasileiro — ainda que sem vítimas — foi real e assustador. O epicentro estava na Venezuela, mas os impactos foram sentidos em estados da Região Norte do Brasil: Pará, Amazonas, Amapá e Roraima. Em Belém, as autoridades evacuaram preventivamente seis prédios para inspeções técnicas — todos liberados posteriormente sem danos estruturais. Em Manaus, moradores relataram oscilações em edificações mais altas.
A resposta do Brasil: a maior missão humanitária em décadas
A resposta brasileira à tragédia venezuelana foi imediata e de grande escala — a maior mobilização humanitária internacional do Brasil em décadas.
Primeiro voo humanitário (26/6): O presidente Lula autorizou o envio de uma equipe de Resgate Urbano com 44 profissionais — entre eles bombeiros militares de Minas Gerais e técnicos da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) —, partindo de Guarulhos na manhã de sexta-feira.
Segundo voo (27/6): A FAB transportou equipamentos para montagem de um Hospital de Campanha da Marinha do Brasil, 100 militares — entre eles 40 profissionais de saúde e 60 Fuzileiros Navais —, além de 100 purificadores de água com painéis solares e materiais de apoio sanitário.
Missão de busca e resgate: O Brasil enviou cerca de 10 toneladas de materiais e equipamentos, uma caminhonete, 37 bombeiros militares e quatro técnicos da Anatel. As equipes foram instaladas em uma base improvisada na região de Los Corales, operando com sensores de movimento, aparelhos para detectar sinais de celulares de vítimas soterradas e seis cães farejadores.
Medicamentos: O Ministério da Saúde mobilizou cinco kits de calamidade com 111,8 mil medicamentos e insumos — cada kit com capacidade para atender 1.500 pessoas durante um mês — incluindo antibióticos, analgésicos e anti-inflamatórios, sem comprometer o estoque do SUS.
Hospital de campanha da Marinha: Em 29 de junho, a Marinha concluiu a montagem de uma Unidade Avançada de Trauma em La Guaira, em operação conjunta com a Força Aérea Brasileira, para atendimento de urgência e estabilização de vítimas.
O coordenador da missão descreveu o cenário no campo: "O cenário é bastante crítico. Estamos em uma região muito próxima do litoral e perto de montanhas. De maneira improvisada, estruturamos uma base em um campo de futebol que também foi afetado pelo terremoto, está com rachaduras e torres de iluminação danificadas. Equipes internacionais chegam a todo momento para ajudar nesse trabalho e o Brasil integra essa força-tarefa nessa primeira fase de busca e salvamento de vítimas nos escombros."
O impacto geopolítico e a solidariedade internacional
A tragédia venezuelana mobilizou o mundo de formas que transcendem as diferenças políticas. Mais de 4.000 socorristas de dezenas de países chegaram ao país. Os Estados Unidos enviaram equipes de resgate e técnicos norte-americanos apoiaram a reparação do aeroporto de Maiquetía — danificado pelos tremores e fechado por dias para voos comerciais. Chile, Itália, Espanha, China e Portugal também confirmaram vítimas entre seus cidadãos.
Na Venezuela, o governo declarou luto nacional. O impacto econômico estimado pelo USGS aponta para perdas equivalentes a 1% a 7% do PIB venezuelano. A Organização Internacional para as Migrações estimou que até 6,76 milhões de pessoas podem ter sido afetadas pelos sismos — incluindo cerca de dois milhões em Caracas.
A dimensão do que se perdeu
Às margens da Copa do Mundo que acontece a poucos quilômetros de distância, nos Estados Unidos, uma nação inteira luta para se reerguer. Dez anos de crise econômica, inflação e êxodo populacional tornaram a Venezuela ainda mais vulnerável a uma catástrofe dessa magnitude — com edificações antigas e infraestrutura fragilizada que não resistiram ao impacto dos dois tremores.
O Brasil, país vizinho e parceiro histórico, respondeu à altura do momento — com soldados, médicos, bombeiros, cães farejadores e medicamentos. A solidariedade não tem fronteiras políticas quando o chão literalmente se move.
As buscas seguem. O balanço ainda não está fechado. E La Guaira, que dez dias atrás era uma cidade, hoje é um campo de escombros em busca dos seus mortos e dos seus vivos.
Política ao Quadrado

0 Comentários