Sexta da Saúde | HPV: o vírus que 80% das pessoas terão — e que pode demorar 20 anos para revelar seus estragos

O Papilomavírus Humano é a infecção sexualmente transmissível mais comum do mundo. Silencioso, sem cura e responsável por quase 100% dos casos de câncer de colo do útero, ele pode ser prevenido com uma única dose de vacina gratuita no SUS — que, no DF, ainda não chegou a 90% dos jovens elegíveis

Ontem, o Política ao Quadrado noticiou que o DF prorrogou a vacinação contra o HPV para jovens de 15 a 19 anos até dezembro — e que apenas 11,3% do público-alvo se vacinou até agora. Hoje, na Sexta da Saúde, vamos mais fundo: afinal, o que é exatamente esse vírus, como ele age no corpo, quais os sintomas, quando procurar um médico — e por que a vacina é uma das maiores conquistas da medicina preventiva das últimas décadas.

Se você tem entre 15 e 19 anos, tem filhos nessa faixa etária ou simplesmente quer entender o que está em jogo, este guia é para você.

O que é o HPV — e por que ele é tão comum

O Papilomavírus Humano, conhecido pela sigla HPV, é uma das infecções virais mais comuns em todo o mundo, afetando tanto homens quanto mulheres em várias partes do corpo. Dados recentes da Organização Mundial da Saúde estimam que cerca de 80% das pessoas sexualmente ativas entrarão em contato com algum tipo de HPV ao longo da vida.

Existem mais de 200 tipos do vírus identificados pela ciência. A grande questão não é apenas a frequência da infecção, mas a persistência de determinados subtipos considerados de alto risco — porque é essa persistência que abre caminho para o desenvolvimento de cânceres.

O vírus infecta pele e mucosas de homens e mulheres em qualquer idade, e sua transmissão ocorre principalmente pelo contato direto com pele e mucosas infectadas — sendo a via sexual a principal forma de contágio, por meio de relações oral-genital, genital e anal, com ou sem penetração. O ponto crucial: o preservativo reduz, mas não elimina completamente o risco de transmissão, pois as lesões podem estar presentes em áreas não cobertas pela camisinha.

Os dois grandes grupos: baixo risco e alto risco

Entender o HPV começa por compreender que não existe "um HPV" — existem centenas de tipos, divididos em dois grandes grupos com consequências muito diferentes:

Tipos de baixo risco — como os HPV 6 e 11, não causam câncer, mas são responsáveis por cerca de 90% das verrugas genitais. As lesões costumam aparecer como pequenas protuberâncias irregulares, da cor da pele ou levemente avermelhadas, que se assemelham a uma pequena couve-flor. Podem coçar, doer, sangrar e causar desconforto — e às vezes voltam após o tratamento.

Tipos de alto risco — como os HPV 16 e 18, são os protagonistas dos casos mais graves. Esses dois tipos sozinhos estão associados a aproximadamente 70% dos cânceres de colo do útero. Além disso, estão ligados a cânceres de pênis, ânus, boca, garganta, vulva e vagina — em homens e mulheres.

A diferença fundamental entre os dois grupos é que os tipos de alto risco geralmente não causam sintomas visíveis. O vírus age em silêncio, alterando as células lentamente ao longo de anos — ou décadas.

O grande engano: "não tenho sintomas, então estou bem"

Este é o erro mais comum — e mais perigoso — em relação ao HPV. A infecção é frequentemente assintomática. Homens e mulheres podem portar e transmitir o vírus sem apresentar qualquer sintoma visível. Isso significa que uma pessoa pode estar infectada pelos tipos de alto risco do HPV sem saber — e sem que qualquer exame clínico simples revele a infecção.

O desenvolvimento do câncer causado pelo HPV não surge da noite para o dia. Ele pode levar muitos anos para se desenvolver e depende de uma infecção persistente pelo vírus. As lesões podem demorar até 20 anos para aparecer. Durante esse longo período, a infecção silenciosa vai alterando células do colo do útero — ou de outras regiões — de forma gradual e imperceptível, passando por estágios de lesão pré-cancerosa antes de evoluir para um câncer invasivo.

É exatamente por isso que o rastreamento regular é tão importante — e que a vacina, aplicada antes da primeira exposição ao vírus, tem eficácia de quase 100%.

Os sintomas que podem aparecer — e onde procurar

Quando o HPV se manifesta visivelmente, os sinais dependem do tipo de vírus e do sexo biológico da pessoa infectada:

Em mulheres, as verrugas genitais podem aparecer na vulva, vagina, colo do útero, ânus e canal anal. As alterações celulares no colo do útero causadas pelos tipos de alto risco, no entanto, raramente produzem sintomas perceptíveis — e por isso dependem do Papanicolau para serem detectadas. Em estágios mais avançados de lesão pré-cancerosa ou câncer, podem surgir sangramento vaginal fora do período menstrual, sangramento após relações sexuais, corrimento com odor e dor pélvica.

Em homens, os sintomas — quando existem — costumam ser verrugas no pênis, bolsa escrotal, ânus e canal anal. As lesões pré-cancerosas nos genitais masculinos são raras, diferente das mulheres — o que não significa que homens não transmitem o vírus ou não possam desenvolver cânceres associados ao HPV, especialmente de ânus, boca e garganta.

O Papanicolau: o exame que salva vidas — e que muitas mulheres ainda negligenciam

Para as mulheres, o exame de Papanicolau — também chamado de colpocitologia ou citologia cervical — é a principal ferramenta de rastreamento de alterações celulares causadas pelo HPV no colo do útero. O rastreamento regular por meio do Papanicolau pode detectar essas alterações precocemente, permitindo o tratamento antes que o câncer se desenvolva.

As recomendações atuais do Ministério da Saúde indicam que mulheres entre 25 e 64 anos devem realizar o Papanicolau a cada três anos, após dois exames anuais consecutivos com resultado normal. O exame é gratuito pelo SUS em todas as Unidades Básicas de Saúde do DF.

Se o Papanicolau indicar alterações, o próximo passo costuma ser a colposcopia — um exame que permite visualizar o colo do útero com ampliação — e, se necessário, uma biópsia para análise do tecido. O diagnóstico precoce, nas fases de lesão pré-cancerosa, permite tratamento com altíssima taxa de sucesso.

Para os homens, o diagnóstico é clínico e pode envolver, dependendo dos sintomas, peniscopia e biópsia solicitadas pelo urologista.

A vacina: uma dose que protege para a vida

A vacina disponível gratuitamente no SUS é a quadrivalente, que protege contra quatro tipos do HPV — os tipos 6 e 11 (responsáveis pelas verrugas genitais) e os tipos 16 e 18 (responsáveis pela maioria dos cânceres associados ao vírus). Desde 2024, o Brasil adota o esquema de dose única para o público-alvo padrão — uma simplificação que eliminou a principal barreira logística da campanha.

A vacina é mais eficaz quando aplicada antes do início da vida sexual, porque o organismo ainda não teve contato com o vírus. Nessa condição, a eficácia na prevenção dos tumores associados ao HPV chega a quase 100%. Um estudo da Fiocruz publicado na revista The Lancet comprovou que a vacinação reduziu em até 58% os casos de câncer de colo do útero no Brasil entre mulheres jovens vacinadas.

No DF, como o Política ao Quadrado noticiou ontem, a vacinação está disponível gratuitamente até 31 de dezembro para jovens de 15 a 19 anos que ainda não receberam a dose — em mais de 100 postos de saúde da rede pública, com 9,3 mil doses em estoque. Basta levar um documento com foto.

Mitos que precisam ser desmontados

"Só quem tem muitos parceiros pega HPV." — Falso. Uma única relação sexual é suficiente para a transmissão. O vírus pode estar presente mesmo em pessoas que tiveram poucos parceiros ao longo da vida.

"Se uso camisinha, estou completamente protegido." — Parcialmente verdadeiro. O preservativo reduz o risco, mas não elimina completamente, pois o vírus pode estar em áreas não cobertas pela camisinha.

"Só mulher precisa se preocupar com o HPV." — Falso. Homens também transmitem o vírus, podem desenvolver cânceres associados ao HPV e precisam igualmente da vacina.

"Já tive HPV — a vacina não serve para mim." — Depende. A vacina protege contra os tipos que você ainda não contraiu. Converse com seu médico sobre a indicação.

"HPV tem cura." — O vírus em si não tem tratamento. O que pode ser tratado são as lesões e os cânceres que ele causa — e com muito mais sucesso quando detectados precocemente.

O que fazer agora — um guia prático

Se você tem entre 9 e 19 anos e nunca se vacinou: procure a UBS mais próxima ainda este mês. A vacina é gratuita, é dose única e está disponível em mais de 100 postos no DF.

Se você é mulher entre 25 e 64 anos: verifique quando foi seu último Papanicolau. Se faz mais de três anos, agende agora na sua UBS — gratuitamente.

Se você é pai ou mãe de adolescente: leve seu filho ou filha para se vacinar. A proteção é mais eficaz quanto mais cedo for feita.

Se você perceber qualquer lesão genital: procure um ginecologista (mulheres) ou urologista (homens) imediatamente. Não espere o sintoma piorar.


Informação que protege é informação que salva. O Política ao Quadrado traz toda sexta-feira a Sexta da Saúde, com informações que fazem diferença na sua vida e na da sua família.

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