SES-DF amplia prazo após campanha atingir apenas uma fração da meta. Com 9,3 mil doses em estoque e mais de 100 postos disponíveis, o DF tenta recuperar o tempo perdido contra um vírus que causa câncer em silêncio por até 20 anos
Uma boa notícia — com um número preocupante embutido. A Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) anunciou nesta quarta-feira (1º/7) a ampliação do prazo para que adolescentes de 15 a 19 anos que nunca receberam a vacina contra o HPV possam se imunizar gratuitamente na rede pública. A data-limite, que era 30 de junho, foi prorrogada para 31 de dezembro de 2026.
A razão para a extensão é exatamente o que deveria ser motivo de preocupação: a campanha que havia começado em março de 2025 com a meta de imunizar 90% dos adolescentes elegíveis atingiu, até agora, apenas 11,3% do público-alvo no DF. Em termos absolutos, de um universo estimado de 45,2 mil jovens, apenas uma pequena fração compareceu aos postos de saúde.
Por que esse número é alarmante
Onze por cento não é apenas um dado estatístico ruim. É uma fotografia de uma geração desprotegida contra um vírus que pode levar décadas para se manifestar — e quando se manifesta, pode ser tarde demais.
O câncer do colo do útero ainda é o segundo mais comum entre mulheres brasileiras e representa uma das principais causas de mortalidade feminina. E o HPV está na raiz de praticamente todos esses casos. O vírus é responsável por quase 100% dos casos de câncer de colo do útero.
O alerta do infectologista David Urbaez, da própria SES-DF, é direto e precisa ser levado a sério: "Essa vacina tem um espectro de benefícios imenso. Tudo que possa ampliar seu acesso é muito bem-vindo. As lesões podem demorar até 20 anos para aparecer — e mesmo pessoas assintomáticas podem transmitir o vírus."
Em outras palavras: um jovem de 17 anos que se infecta hoje pode só descobrir a doença aos 37 anos. E nesse intervalo, pode ter transmitido o vírus sem saber.
O que a vacina protege — e como funciona
A vacina disponível gratuitamente no SUS é a quadrivalente, que protege contra quatro tipos do HPV: dois de baixo risco, responsáveis por cerca de 90% das verrugas genitais, e dois de alto risco, associados à maioria dos cânceres causados pelo vírus.
Além do câncer de colo do útero, o HPV também pode causar cânceres de pênis, boca, laringe, ânus, vulva e vagina. A doença não discrimina gênero — meninos e meninas precisam igualmente da proteção.
Um estudo conduzido pela Fiocruz, publicado na revista The Lancet, comprovou o impacto positivo da vacinação no Brasil, avaliando dados do SUS entre 2019 e 2023, abrangendo mais de 60 milhões de mulheres entre 20 e 24 anos a cada ano. O resultado foi contundente: a vacina reduziu em até 58% os casos de câncer de colo do útero no Brasil.
Desde 2024, o Brasil adotou o esquema de dose única para os adolescentes do público-alvo — o que simplificou ainda mais o processo. Uma ida ao posto. Uma injeção. Uma proteção para a vida.
Quando aplicada precocemente, antes do início da vida sexual, a eficácia da vacina chega a quase 100% na prevenção de tumores causados pelo HPV.
O cenário nacional: ainda há muito a avançar
O DF não está sozinho na luta contra a baixa adesão. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo IBGE, mostra que apenas 54,9% dos estudantes entre 13 e 17 anos tinham certeza de que foram vacinados contra o HPV. Outros 10,4% ainda não estavam vacinados e 34,6% não sabiam se tinham recebido a vacina ou não.
A situação melhorou nos últimos anos, mas ainda está longe da meta da OMS. Entre as meninas, a cobertura vacinal passou de 79,1% em 2021 para 86,1% em 2025. Já entre os meninos, a cobertura avançou de 41,1% para 74,5% no mesmo período. Os números crescem — mas o HPV permanece uma ameaça real para quem ficou para trás.
Estima-se que entre 50% e 70% das pessoas sexualmente ativas terão contato com o HPV em algum momento da vida. A vacina é, portanto, a única forma eficaz de prevenção primária disponível.
O que o DF vai fazer para aumentar a cobertura
Diante do resultado pífio de 11,3%, a SES-DF anunciou uma estratégia de intensificação da campanha até o fim do ano. Entre as ações previstas:
Reforço no abastecimento das UBSs — as mais de 100 salas de vacina da rede pública do DF receberão doses adicionais. Atualmente, o estoque disponível é de cerca de 9,3 mil doses.
Ações itinerantes — ampliação da vacinação em escolas, feiras, shoppings e por meio do Carro da Vacina, levando o imunizante até onde os jovens estão, sem que precisem ir até um posto de saúde.
A estratégia de levar a vacina até o adolescente — em vez de esperar que ele vá ao posto — é considerada fundamental pelos especialistas. A campanha prevê ações de vacinação nas escolas, e todas as unidades de saúde continuam a aplicar o imunizante nesse público.
Quem pode se vacinar — e o que precisa levar
Público elegível: adolescentes de todos os gêneros com idade entre 15 e 19 anos que nunca receberam a vacina contra o HPV.
Prazo: até 31 de dezembro de 2026.
Onde: em qualquer uma das mais de 100 salas de vacina da rede pública do DF, sem necessidade de agendamento.
O que levar: documento oficial com foto. A caderneta de vacinação é recomendada, mas sua ausência não impede a aplicação da dose.
Custo: gratuito.
Um alerta para pais, responsáveis e jovens
A prorrogação do prazo é uma segunda chance — mas não uma chance infinita. Quem tem entre 15 e 19 anos e ainda não se vacinou tem até o fim do ano para garantir essa proteção. Quem tem filhos ou filhas nessa faixa etária precisa ter essa conversa hoje.
Para modificar o cenário do câncer de colo do útero no Brasil, não basta rastrear a doença — é necessário intensificar a vacinação contra o HPV nas meninas e também nos meninos, incluindo adolescentes. A adoção dessa estratégia pode contribuir para a eliminação da doença como problema de saúde pública nas próximas décadas.
Mas isso só acontece se cada jovem elegível receber a sua dose. E o posto mais próximo está aberto.
Política ao Quadrado

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