Sexta da Saúde | Infarto e AVC: o inverno que chega a Brasília é a estação mais perigosa para o seu coração

Com o frio, os casos de infarto crescem até 30% e os de AVC até 20%. No Brasil, uma pessoa morre de derrame a cada seis minutos. Saber reconhecer os sinais pode salvar sua vida — ou a de alguém que você ama

As manhãs estão mais frias. A amplitude térmica entre o amanhecer e o meio-dia já passa de dez graus em Brasília. Para a maioria das pessoas, isso significa apenas trocar o short pelo agasalho. Mas para o coração — especialmente o de quem tem histórico de hipertensão, diabetes, colesterol alto ou sedentarismo —, essa mudança climática representa um alerta real e urgente.

O inverno é, comprovadamente, a estação mais perigosa para a saúde cardiovascular. Segundo o Instituto Nacional de Cardiologia, os casos de Infarto Agudo do Miocárdio podem crescer até 30% nos meses mais frios, enquanto os casos de AVC aumentam em até 20%, principalmente em temperaturas abaixo de 14°C. E Brasília, com seu inverno seco e suas noites que já chegam perto disso em junho e julho, está no centro dessa estatística. 

Por que o frio ataca o coração?

A resposta está na biologia do próprio corpo humano. Para manter a temperatura interna, o organismo promove a vasoconstrição — um estreitamento dos vasos sanguíneos. Essa reação ajuda a preservar o calor, mas aumenta a pressão arterial e exige mais do coração, o que pode precipitar infartos e AVCs, especialmente em pessoas com doenças cardiovasculares pré-existentes. 

Some-se a isso outro fator típico do inverno: as infecções respiratórias. As infecções, muitas vezes, são um gatilho para a inflamação das placas de gordura já presentes nas artérias — e é justamente essa inflamação, seguida da formação de um coágulo, que leva ao infarto. Quem teve gripe recentemente precisa redobrar a atenção nas semanas seguintes. 

O comportamento também muda no frio — e nem sempre para melhor. Nos dias mais frios, a população tende a alterar os hábitos alimentares, consumindo alimentos mais calóricos e gordurosos, e torna-se mais sedentária — dois fatores que elevam diretamente o risco cardiovascular. 

Os números que assustam

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil — e os dados mais recentes confirmam que a situação está longe de melhorar. Entre janeiro e outubro de 2025, 64.471 brasileiros morreram em decorrência de AVC — o equivalente a uma morte a cada seis minutos. O ritmo consolida a doença como a segunda principal causa de óbito no país, superando o infarto agudo e todas as formas de violência registradas no território nacional. 

No ano de 2025, o número total de óbitos por AVC chegou a 89.490. Em 2024, foram 85.959 mortes por AVC e 78.446 por infarto, segundo dados dos registros de atestados de óbito.

No que diz respeito especificamente ao inverno, o número de infartos nessa estação foi 27,8% maior em mulheres e 27,4% maior em homens na comparação com o verão. São estatísticas que pedem ação — não amanhã, mas hoje. 

Quem corre mais risco

Algumas pessoas precisam de atenção redobrada neste período. As que correm maior risco de apresentar problemas sérios, e até fatais no frio, são as que já sofrem de doenças cardíacas, obesos, hipertensos, fumantes e diabéticos. Idosos também apresentam risco elevado, pois possuem reservas fisiológicas mais restritas e menor capacidade de enfrentar essas condições, respondendo com aumento exacerbado da pressão arterial e maiores transtornos de coagulação sanguínea. 

Há um dado que pouca gente conhece e que merece atenção especial: mais de 60% dos AVCs ocorrem em pessoas com menos de 70 anos, e 16% acontecem em pessoas com menos de 50 anos. O AVC não é exclusividade da terceira idade — e subestimar esse risco quando jovem é um dos erros mais perigosos. 

Reconheça os sinais — e aja rápido

O tempo é o fator mais crítico tanto no infarto quanto no AVC. A cada minuto sem tratamento, podem ser perdidos até 2 milhões de neurônios em um AVC não tratado. No caso do AVC isquêmico, o medicamento capaz de dissolver o coágulo tem maior efeito nas primeiras quatro horas e meia — o que torna o atendimento rápido uma etapa absolutamente decisiva. 

Sinais de infarto — não ignore nenhum deles:

Dor ou desconforto no centro do peito, que pode irradiar para braços, ombro esquerdo, cotovelos, mandíbula ou costas. Outros sinais incluem vômitos, tontura, suor frio e palidez. Mulheres, em particular, podem manifestar sintomas atípicos, como náuseas e falta de ar. Em diabéticos e idosos, o infarto pode ocorrer sem sintomas específicos — o que torna a vigilância ainda mais importante para esses grupos. 

Sinais de AVC — use o método FAST:

Uma forma simples e eficaz de identificar um possível AVC é o método FAST:

FFace (Rosto): Peça para a pessoa sorrir. O rosto está assimétrico ou um lado caiu?

AArms (Braços): Peça para levantar os dois braços. Um deles cai ou não consegue subir?

SSpeech (Fala): A fala está confusa, arrastada ou a pessoa não consegue repetir uma frase simples?

TTime (Tempo): Se qualquer um desses sinais aparecer, ligue imediatamente para o 192 (SAMU) ou leve a pessoa ao pronto-socorro mais próximo. Não espere.

Outros sinais de alerta do AVC incluem alteração do equilíbrio e coordenação, confusão mental, alteração na visão e dor de cabeça súbita e intensa, diferente do padrão habitual. 

O que fazer para proteger seu coração neste inverno

A boa notícia é que a maioria dos fatores de risco é controlável. Segundo a World Stroke Organisation, 90% dos AVCs são preveníveis por estarem associados a comportamentos modificáveis. Veja o que fazer agora: 

Meça sua pressão regularmente — a hipertensão é silenciosa e é o principal fator de risco tanto para infarto quanto para AVC. Sinais que indicam necessidade de atendimento médico urgente incluem dor de cabeça forte, tontura, visão embaçada, dor no peito ou falta de ar. 

Mantenha o corpo aquecido — especialmente nas saídas ao ar livre pela manhã, quando a temperatura em Brasília já está mais baixa. A variação brusca de temperatura é um gatilho para a vasoconstrição.

Não abandone os exercícios — a tentação de ficar no sofá no frio é real, mas o sedentarismo eleva diretamente o risco cardiovascular. Adapte a atividade física para horários mais quentes do dia, entre 10h e 15h.

Cuide da alimentação — reduza o sal, as gorduras saturadas e o álcool, que elevam a pressão arterial. Capriche em frutas, verduras e proteínas magras.

Tome a vacina contra a gripe — a vacina contra a gripe, disponível gratuitamente pelo SUS, ajuda a reduzir o risco de infarto ao prevenir infecções que podem desencadear inflamações nas placas arteriais. 

Mantenha exames em dia — colesterol, glicemia, triglicerídeos e eletrocardiograma são exames que podem detectar riscos antes que o pior aconteça. Se você não faz check-up cardiovascular há mais de um ano, este é o momento.

Onde buscar atendimento no DF

Em caso de suspeita de infarto ou AVC, ligue imediatamente para o SAMU — 192. O serviço funciona 24 horas e é gratuito. No Distrito Federal, os hospitais de referência para emergências cardiovasculares são o Hospital de Base (Asa Sul) e o Hospital Regional de Taguatinga (HRT). Não dirija sozinho em caso de sintomas — chame ajuda.

Cuidar do coração não é pauta para quando a doença chega. É pauta para hoje, sexta-feira, enquanto ainda há tempo de prevenir.

O Política ao Quadrado traz toda sexta-feira a Sexta da Saúde, com informações que fazem diferença na sua vida e na da sua família.


Política ao Quadrado

Postar um comentário

0 Comentários