Governadora reúne-se com presidente do Banco Central nesta quinta (14/5) em busca de saída para a crise. Prazo para apresentação do balanço vence em 29 de maio, capitalização trava no STF e delação de ex-presidente do BRB ameaça envolver deputados distritais
O Banco de Brasília (BRB) vive os dias mais tensos de sua história. A instituição financeira do Governo do Distrito Federal enfrenta, ao mesmo tempo, uma crise de liquidez, uma batalha jurídica no Supremo Tribunal Federal, a pressão de um prazo regulatório que se aproxima em velocidade acelerada — e agora, uma ameaça política de proporções ainda desconhecidas: a possível delação do ex-presidente do banco, que pode arrastar deputados distritais para o centro do escândalo.
Para tentar destravar esse nó, a governadora Celina Leão (PP) intensificou a agenda nos últimos dias com uma sequência de reuniões de alto nível — no BC, no STF e nos bastidores políticos do DF. O relógio não para.
A reunião que pode mudar o rumo do banco
A governadora Celina Leão deve participar de uma reunião decisiva com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, nesta quinta-feira (14/5), na sede da instituição. O encontro deve contar com a presença do secretário de Economia do DF, Valdivino de Oliveira, e acontece em um momento considerado decisivo para o futuro do BRB.
Em agenda oficial na véspera, Celina disse estar "otimista" com as negociações, mas não adiantou detalhes. A cautela é estratégica: qualquer declaração mais enfática pode afetar a percepção do mercado sobre o banco, cujos papéis já acumulam forte desvalorização.
A possibilidade da reunião entre Celina e Galípolo ganhou repercussão após declarações da senadora Leila Barros (PDT) feitas na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, que afirmou ser aquele um momento importante para cobrar esclarecimentos sobre os rumos do BRB e os encaminhamentos do Banco Central diante da crise.
O prazo que ninguém pode perder: 29 de maio
No centro da tensão está um prazo que os técnicos do GDF conhecem bem — e que os mantém acordados à noite. Sem publicar balanço desde o ano passado, o BRB tem até o dia 29 de maio para entregar os números auditados exigidos pela Lei das Sociedades Anônimas e pelas regras prudenciais do Banco Central. O documento deverá apresentar detalhamento sobre lucros, prejuízos, patrimônio, passivos, ativos, provisões, riscos e a real situação financeira da instituição.
A divulgação do balanço é considerada peça-chave para que o mercado compreenda a extensão dos impactos das operações fraudulentas envolvendo o Banco Master e avalie a capacidade do BRB de sustentar suas atividades no médio prazo. Em outras palavras: sem o balanço, o banco fica em limbo — sem que investidores, reguladores ou a própria sociedade brasiliense saibam com clareza o tamanho do buraco.
A capitalização: um plano de até R$ 8,8 bilhões travado na Justiça
Para recompor o patrimônio, o BRB tem em andamento um processo de capitalização aprovado em assembleia-geral extraordinária. A operação autorizou a ampliação do limite de ações que poderão ser emitidas pela instituição, permitindo uma captação de até R$ 8,8 bilhões por meio da emissão de 2,5 bilhões de novos papéis ao preço unitário de R$ 5,36.
O modelo prevê prioridade inicial aos atuais acionistas, mas abre espaço para entrada de capital privado caso parte dos investidores não acompanhe os aportes. Além disso, o Conselho de Administração do BRB aprovou um memorando de entendimento com a Quadra Capital para estruturar um fundo estimado em R$ 15 bilhões, que prevê uma parcela inicial entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões em recursos imediatos, além de cotas do fundo. A proposta contempla a transferência de ativos recebidos em negociações com o Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025.
O problema é que esse plano encontrou um obstáculo inesperado. O presidente do banco, Nelson de Souza, afirmou que a insegurança jurídica envolvendo a lei distrital de capitalização — que previa a oferta de terrenos do GDF como garantia — atrasou o cronograma inicialmente planejado. "A situação do BRB só não está resolvida por conta da insegurança jurídica que se criou sobre a lei distrital de capitalização do banco", declarou.
STF no meio do caminho
O Supremo Tribunal Federal está analisando ações relacionadas ao processo de capitalização do BRB e à legalidade da utilização de ativos públicos do Distrito Federal — como terrenos e imóveis — para reforçar o caixa da instituição. O tema chegou a ser liberado por decisão liminar do ministro Edson Fachin, mas o ministro Flávio Dino pediu destaque no julgamento, transferindo a análise para o plenário físico da Corte.
Na segunda-feira (12/5), Celina Leão esteve no STF para reunião com o ministro Cristiano Zanin. O GDF informou, por meio de nota, que a pauta foi exclusivamente relacionada às medidas envolvendo o BRB e à discussão sobre a possibilidade de venda de ativos públicos para fortalecer financeiramente o banco.
Para tentar reduzir resistências políticas e ambientais que pesam contra o plano no tribunal, Celina Leão retirou duas áreas públicas do pacote: um terreno localizado na Serrinha do Paranoá e outro ocupado pela Secretaria de Saúde, no Setor de Indústria e Abastecimento. Segundo o GDF, estudos técnicos apontaram limitações ambientais e questões ligadas ao interesse público das áreas.
O espectro da privatização
Enquanto o GDF tenta montar o quebra-cabeça financeiro, cresce nos bastidores o debate sobre o futuro do BRB enquanto banco público. Oficialmente, o GDF evita comentar o tema. Mas economistas consultados apontam que a ampliação da participação privada pode alimentar discussões futuras sobre mudança no perfil da instituição.
O economista e professor da UnB César Bergo resume o momento com precisão: a atual crise criou um ambiente favorável para o avanço das discussões sobre privatização, algo que historicamente não fazia parte do centro do debate político local. Mas ele ressalva que há uma engenharia societária possível: enquanto o GDF mantiver o controle das ações votantes, o banco continua sendo uma empresa de economia mista — é possível capitalizar o banco sem necessariamente perder o controle da instituição.
O consultor Daniel dos Passos Soares é direto ao caracterizar o momento: a capitalização tem caráter urgente e regulatório muito mais do que necessariamente privatizante. O objetivo imediato é recompor os índices prudenciais, fortalecer o patrimônio e recuperar a capacidade operacional da instituição.
A bomba política: delação e mesadas para deputados distritais
Como se a crise financeira e jurídica não bastasse, o BRB enfrenta agora uma ameaça política de proporções ainda imprevisíveis. Informações obtidas pelo Correio Braziliense indicam que a proposta de delação premiada do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa — preso na Papudinha — está sendo construída pela defesa, com advogados definindo quais informações integrarão o material a ser apresentado à Polícia Federal nos próximos dias.
O conteúdo potencial da delação provocou reações imediatas na Câmara Legislativa do DF. A senadora Damares Alves (Republicanos) elevou o tom durante sessão da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, afirmando que fará campanha contra deputados distritais caso as denúncias sejam confirmadas pela Justiça. Segundo ela, a suposta delação indicaria que parlamentares distritais teriam recebido pagamentos mensais de R$ 150 mil para garantir apoio político às operações do BRB envolvendo o Banco Master.
O deputado distrital Jorge Vianna (Democrata) negou irregularidades e afirmou nunca ter solicitado vantagens indevidas ao banco. "Não estão respeitando os mandatos de deputados íntegros. Nunca pedi favor para o presidente do Banco de Brasília", declarou.
O que está em jogo
O BRB não é apenas um banco. É o instrumento financeiro histórico do DF para concessão de crédito, financiamento habitacional e políticas de desenvolvimento regional. Sua eventual deterioração — ou privatização — teria impactos diretos na vida de milhares de servidores públicos, mutuários e empresas que operam no quadradinho.
As próximas duas semanas serão decisivas. A reunião com o Banco Central nesta quinta, o julgamento no STF, o prazo do balanço em 29 de maio e os possíveis desdobramentos da delação formam um cenário de alta tensão que o Política ao Quadrado acompanhará de perto.
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