A umidade do ar no DF pode cair a 12% no auge do inverno — o equivalente a um deserto. Os olhos são as primeiras vítimas, e a maioria das pessoas ainda subestima os riscos
Você já acordou de manhã com os olhos colados, ardendo ou com aquela sensação incômoda de areia? Ou passou horas na frente do computador com os olhos vermelhos e lacrimejando? Se isso acontece com mais frequência agora, em maio, não é coincidência. É o inverno chegando — e com ele, uma das estações mais agressivas do Brasil para a saúde ocular.
Brasília é uma cidade de extremos quando o assunto é umidade do ar. Segundo a Estação Climática de Brasília, a umidade do ar cai de mais de 70% para uma média de 20% no período de seca, que ocorre entre agosto e setembro. Nos momentos mais críticos, a umidade relativa do ar pode alcançar os 12% — valor equivalente ao de um deserto. E maio é o mês em que essa queda começa de verdade.
A umidade relativa do ar considerada adequada para a preservação da saúde, segundo especialistas, está entre 40% e 60%. Brasília passa boa parte do inverno muito abaixo disso — e os olhos pagam o preço.
O que o ar seco faz com seus olhos
A explicação é simples, mas o impacto é significativo. O olho humano precisa de uma película lacrimal estável para manter a superfície ocular lubrificada e protegida. Em períodos de ar extremamente seco, essa película evapora com mais facilidade, causando sintomas como ardência, vermelhidão, sensação de areia nos olhos e visão borrada.
O ar seco também pode afetar a membrana conjuntiva do olho, que fica ressecada, inflamada ou irritada, com sensação de coceira, vermelhidão e dor — o que favorece o aparecimento da conjuntivite.
E não para por aí. A conjuntivite viral, bastante comum no inverno, é uma inflamação da conjuntiva causada por vírus — em geral o mesmo tipo que provoca resfriados — e pode causar coceira, ardência, vermelhidão, lacrimejamento, secreção nos olhos e fotofobia. Os vírus que causam essa infecção se espalham facilmente em locais fechados, onde as pessoas tendem a passar mais tempo durante a estação fria.
Uma epidemia silenciosa: a síndrome do olho seco
Por trás do desconforto cotidiano, há uma condição clínica que poucos reconhecem pelo nome correto: a Síndrome do Olho Seco (SOS). E ela é muito mais comum do que se imagina.
A síndrome afeta mais de 34% dos brasileiros, segundo estimativas recentes. Ela ocorre quando os olhos não produzem lágrimas suficientes ou quando a qualidade das lágrimas não é adequada, resultando em desconforto e possíveis complicações a longo prazo.
Pesquisa da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, publicada na revista Clinics, aponta que a síndrome do olho seco está muito mais associada às regiões urbanas, com prevalência de cerca de 40%, do que às rurais, onde ocorre em 20% da população. A condição também é mais frequente entre as mulheres, atingindo mais de 35% delas.
Um dado que chama atenção especialmente para os mais jovens: estudo conduzido pela Aston University, publicado em 2025, revelou que cerca de 90% dos jovens entre 18 e 25 anos avaliados apresentaram pelo menos um sinal da doença do olho seco — impulsionados pelo uso prolongado de telas digitais, padrões irregulares de sono e hábitos que comprometem a produção e a qualidade da lágrima.
Os grupos mais vulneráveis no DF
Quem mora em Brasília e se encaixa em um ou mais desses perfis precisa redobrar a atenção neste inverno:
Usuários intensivos de telas — servidores públicos, estudantes e profissionais que passam horas em frente a computadores e celulares. O uso prolongado de dispositivos eletrônicos está diretamente relacionado ao crescimento dos casos de síndrome do olho seco, pois reduz a frequência de piscar e diminui a lubrificação natural.
Usuários de lentes de contato — o uso prolongado de lentes de contato é um dos principais fatores de risco para a síndrome, especialmente em ambientes secos. No inverno brasiliense, a combinação é especialmente perigosa.
Mulheres acima de 40 anos — fatores hormonais, em especial na pós-menopausa, contribuem para o aumento da prevalência da síndrome do olho seco neste grupo.
Pessoas com rinite e alergias respiratórias — as alergias oculares, como as conjuntivites alérgicas, tendem a piorar significativamente no inverno, muitas vezes de forma simultânea com as alergias respiratórias como rinite e asma.
Como proteger seus olhos durante o inverno do Cerrado
As medidas preventivas são simples, acessíveis e fazem diferença real:
Umidifique o ambiente — use umidificador de ar em casa, principalmente no quarto durante o sono. Na ausência do aparelho, uma bacia com água próxima ao ar-condicionado ajuda a manter a umidade local.
Aplique colírio lubrificante — colírios à base de lágrima artificial, sem conservantes, aliviam os sintomas e protegem a superfície ocular. Mas atenção: a prescrição e a escolha do produto correto devem ser feitas por um oftalmologista.
Siga a regra 20-20-20 — a cada 20 minutos de tela, olhe para um ponto a 20 pés de distância (cerca de 6 metros) por 20 segundos. Este simples hábito reduz a fadiga ocular e estimula o piscar natural.
Hidrate-se bem — a hidratação do organismo impacta diretamente a produção lacrimal. Beba água regularmente ao longo do dia.
Evite ar-condicionado direto nos olhos — ambientes com ar-condicionado em funcionamento contínuo favorecem a evaporação da lágrima e irritação ocular. Direcione o fluxo de ar para longe do rosto.
Use óculos de sol — além de proteger contra a radiação UV extrema, os óculos criam uma barreira física contra o vento seco e a poeira, que também irritam os olhos.
Não esfregue os olhos — o gesto instintivo de coçar os olhos quando eles ardem piora a inflamação e aumenta o risco de infecções.
Quando ir ao médico
Se um ou mais sintomas persistirem — como ardência, vermelhidão, visão embaçada ou sensação de corpo estranho nos olhos —, é essencial buscar a avaliação de um oftalmologista o mais cedo possível para evitar complicações e garantir a qualidade visual.
No DF, consultas oftalmológicas pelo SUS podem ser agendadas nas Unidades Básicas de Saúde de cada região administrativa. Para casos mais graves ou agudos, os hospitais da rede SES-DF realizam atendimento de urgência ocular.
Seus olhos trabalham o dia inteiro por você. No inverno de Brasília, devolva o favor: cuide deles.
Política ao Quadrado

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