R$ 900 milhões e 3 mil vítimas: o colapso da Naskar e o pesadelo de quem confiou seu patrimônio a uma fintech brasiliense

Empresa prometia 2% ao mês — 175% do CDI — e operou por 13 anos sem problemas. Em maio, simplesmente parou de funcionar. Sem cobertura do FGC e com sócios sumidos, clientes do DF relatam desespero e ruína financeira. PCDF investiga o caso

Um empresário brasiliense de 40 anos resume em uma frase o que milhares de pessoas estão sentindo neste momento: "Estou quebrado. Minha vida acabou." Wesley Albuquerque não perdeu apenas suas economias. Perdeu também a confiança que depositou em uma empresa com a qual trabalhava há seis anos — e arrastou consigo a mãe, que vendeu uma casa para investir e hoje não tem renda, reserva ou aposentadoria.

Esse é o rosto humano do colapso da Naskar Gestão de Ativos Ltda., fintech que operou por mais de uma década captando recursos de investidores com a promessa de retornos excepcionais e que, no início de maio de 2026, simplesmente desapareceu — levando junto estimados R$ 850 milhões a R$ 900 milhões de cerca de 3 mil clientes em todo o país.

Como funcionava — e por que tanta gente entrou

O modelo de negócios da Naskar era simples, atraente e, em retrospecto, deveria ter acendido alarmes. A empresa prometia rendimento de 2% ao mês — o equivalente a 26,82% ao ano, representando 175% do CDI no patamar atual. Para comparar, um CDB excelente hoje paga 110% do CDI. A Naskar pagava 175%.

Na prática, funcionava assim: o cliente depositava seu patrimônio na fintech, que se comprometia a gerir o dinheiro e devolver mensalmente os rendimentos. Quem investia R$ 1 milhão recebia R$ 20 mil por mês. A financeira operou por 13 anos sem apresentar problemas aparentes — tempo suficiente para construir uma reputação sólida e conquistar a confiança de empresários, aposentados, bancários e famílias inteiras.

A empresa chegou a ter sede no Distrito Federal e, mais recentemente, mantinha endereço fixo em São Paulo. Seus três sócios são Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato — mais conhecido como Maurício Jahu, ex-jogador da Seleção Brasileira de Vôlei e apresentador de televisão, cuja presença emprestava visibilidade e credibilidade ao negócio.

O dia em que tudo parou

No início de maio de 2026, a empresa interrompeu abruptamente as operações, bloqueou o aplicativo, tirou o site do ar e deixou cerca de 3 mil clientes sem explicações — e, pior, sem acesso aos próprios recursos. O pagamento mensal de rendimentos, previsto para a segunda-feira (4/5), simplesmente não foi realizado. Nenhum dos três sócios atendeu ligações ou respondeu mensagens.

Os sócios da empresa não atendem chamadas nem respondem mensagens desde que os rendimentos pararam de ser pagos. A sensação generalizada entre os investidores é de golpe.

Em nota divulgada na manhã de sexta-feira (8/5), a Naskar afirmou ter sofrido uma "perda na base de dados" e prometeu início do processo de regularização na semana seguinte. Numa segunda nota, divulgada à tarde do mesmo dia, a empresa mudou o discurso: alegou ter identificado "inconsistências na base de dados" e prometeu normalização "o mais breve possível", sem apresentar prazo concreto.

As explicações, vagas e contraditórias, não convenceram ninguém.

O desespero em números e rostos

Os números do caso são brutais. Para se ter ideia da gravidade da situação: um único empresário tinha R$ 3,9 milhões investidos na Naskar; um bancário possuía R$ 2,3 milhões aplicados; um aposentado aportou R$ 1 milhão. Todos moradores do Distrito Federal.

Wesley Albuquerque, empresário do setor de consórcios, é um dos mais afetados — e não apenas pelo próprio dinheiro. Ao longo de seis anos de parceria com a Naskar, ele captou 135 clientes para a fintech. Somado, o montante investido pelas pessoas trazidas por ele chega a R$ 47 milhões.

"A nossa confiança foi aumentando cada vez mais, a ponto de eu deixar todo o meu dinheiro lá", conta Wesley. A situação se agravou quando ele convenceu a própria mãe a investir o valor obtido com a venda de um imóvel. "Agora, com esse sumiço, minha mãe não tem reserva, não tem dinheiro mensal, não tem aposentadoria, não tem nada", diz, em desespero.

"Estou me mantendo à base de medicamentos desde segunda-feira (4/5). Já chorei. Minha mulher não dorme. Estou quebrado, minha vida acabou", relatou o empresário.

O problema que agrava tudo: sem cobertura do FGC

Se a situação já era grave, a ausência de uma rede de proteção a torna ainda mais dramática. A Naskar não tem cobertura pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) — o mecanismo criado em 1995 que funciona como uma espécie de seguro para depósitos e investimentos feitos em instituições financeiras associadas, garantindo o ressarcimento de até R$ 250 mil por CPF em caso de falência ou liquidação de um banco.

Instituições como Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Itaú e Santander são exemplos de associadas ao FGC. A Naskar não integrava essa lista — o que significa que, se os recursos não forem recuperados, os clientes não têm para onde recorrer em busca de ressarcimento automático.

Essa ausência de proteção institucional é um dos elementos centrais que distinguem uma fintech não regulamentada de uma instituição financeira tradicional — uma distinção que muitos investidores, atraídos pelos altos rendimentos, não levaram em conta ou simplesmente desconheciam.

PCDF investiga; Reclame Aqui transborda

A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) instaurou investigação sobre o caso. As apurações devem analisar não apenas o paradeiro dos recursos, mas também o modelo de captação adotado pela empresa — que, ao prometer retornos de 175% do CDI sem a devida regulamentação, levanta suspeitas sobre a sustentabilidade do negócio e possíveis práticas fraudulentas.

No Reclame Aqui, os registros de clientes lesados se multiplicam. "Estou sem acesso ao app, não recebi rendimentos e não tenho nenhuma resposta", escreveu uma usuária. "A Naskar Holding bloqueou o acesso ao aplicativo. Tenho valores investidos e não consigo resgatar", relatou outro investidor.

O sinal de alerta que ninguém quis ver

O caso Naskar é, infelizmente, um roteiro familiar no mercado financeiro brasileiro. Rendimento de 2% ao mês — o dobro ou o triplo do que oferecem produtos regulamentados de renda fixa — é, quase invariavelmente, um sinal vermelho. Quando uma promessa de retorno supera significativamente o mercado sem uma explicação clara de onde vem esse ganho, a pergunta inevitável é: de onde vem o dinheiro para pagar esses rendimentos?

O fato de a Naskar ter operado por 13 anos não é necessariamente um atestado de legitimidade. Modelos do tipo podem sustentar pagamentos por anos enquanto o fluxo de novos investidores mantém o caixa aquecido — até o dia em que não conseguem mais honrar os compromissos.

O Política ao Quadrado acompanhará os desdobramentos da investigação da PCDF e as movimentações jurídicas dos investidores lesados. Se você ou alguém de sua família tem recursos na Naskar, o caminho imediato é registrar boletim de ocorrência na PCDF e buscar orientação jurídica para ingressar com medidas cautelares de bloqueio de bens dos sócios.


Política ao Quadrado

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