A campanha para o Governo do Distrito Federal entrou em agosto com um retrato que é, ao mesmo tempo, favorável a Celina Leão (Federação PP/União Brasil/Republicanos/MDB/Podemos) e um alerta de que a disputa está longe de decidida. A mais recente pesquisa Quaest, realizada entre 21 e 24 de agosto com 1.104 eleitores e margem de erro de 3 pontos percentuais, mostra a governadora na liderança folgada do cenário estimulado, mas revela um eleitorado ainda em formação: 63% dos entrevistados não conseguem citar espontaneamente um nome quando perguntados sobre quem gostariam que governasse o DF.
Os números
No estimulado — quando os nomes são apresentados ao eleitor — Celina aparece com 34%, seguida por José Roberto Arruda (PSD) com 20% e Leandro Grass (PT) com 13%. Paula Belmonte (PSDB) e Cappelli (PSB) marcam 3% cada, e 24% do eleitorado segue indeciso ou declara voto em branco/nulo. No espontâneo, a vantagem de Celina se mantém proporcionalmente (15% a 8% de Arruda e 7% de Grass), mas o dado que chama atenção é o tamanho da faixa "não sei/não respondeu": quase dois terços do eleitorado. Uma pesquisa do Instituto Opinião feita poucas semanas antes (30 de julho a 1º de agosto) já apontava direção parecida — Celina com 32,4% ante 24% de Arruda e 9,8% de Grass no estimulado — e simulava cenários de segundo turno em que a governadora venceria tanto Arruda (43,6% a 40,1%, dentro da margem de erro) quanto Grass (53,8% a 28,6%). Ou seja: a distância no primeiro turno é real, mas o eventual confronto direto com Arruda aparece tecnicamente empatado.
Uma aprovação que varia conforme quem pergunta
Vale cruzar esses números eleitorais com as pesquisas de avaliação de governo, que nas últimas semanas mostraram resultados bem diferentes entre institutos — o que por si só já é pauta. A Real Time Big Data mediu aprovação de 60% e reprovação de 38%; a Quaest, 54%; a Correio/Opinião, 51,9% (ante 33,7% de reprovação, com salto em relação aos 45,7% de junho); já o Datafolha ficou num quadro bem mais apertado, com 47% de aprovação e 44% de desaprovação. A dispersão entre institutos — de 47% a 60% — é grande o suficiente para render uma nota própria sobre metodologia, mas o consenso entre eles é que Celina cresceu ao longo do ano, muito às custas de como conduziu dois temas: a crise da saúde pública e, principalmente, o caso BRB–Banco Master.
O fantasma do Banco Master
Esse segundo ponto merece destaque à parte. O Banco Master, que crescia oferecendo CDBs de rentabilidade agressiva sustentados por ativos sem lastro real, entrou em liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central depois que se revelou parte da estrutura como fraudulenta. O BRB (Banco de Brasília, estatal do GDF) chegou a negociar a aquisição de ativos ou do controle do Master — operação abortada sob pressão pública e alertas técnicos, mas que deixou suspeita de gestão temerária de recursos públicos e risco de prejuízo bilionário ao banco distrital. O episódio, que começou a estourar ainda sob Ibaneis Rocha, se tornou um dos temas centrais do primeiro semestre de Celina à frente do governo — e, segundo a leitura do próprio Correio/Opinião, ela vem conseguindo, até aqui, se descolar pessoalmente da crise perante o eleitor, ao mesmo tempo em que se apresenta como quem vai resolver o problema. Há inquéritos administrativos, civis e criminais em curso, incluindo apuração da Polícia Federal — matéria que deve seguir dando pano de manga até a eleição.
Arruda, 16 anos depois
O segundo colocado nas pesquisas é, em si, uma história política e tanto. José Roberto Arruda foi senador (eleito em 1994), o deputado federal mais votado do país em 2002 e governador do DF eleito em primeiro turno em 2006, com 50% dos votos válidos. Seu primeiro mandato terminou em escândalo: a Operação Caixa de Pandora, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2009, revelou um esquema de pagamentos mensais a parlamentares distritais — Arruda teria recebido repasses quinzenais de R$ 50 mil e coordenado parte da rede. Foi preso preventivamente entre fevereiro e abril de 2010 (o primeiro governador do país preso durante o mandato) e cassado pelo TRE-DF naquele mesmo ano. Em 2017 ainda foi condenado por falsidade ideológica no episódio conhecido como "farra dos panetones". Agora, com a inelegibilidade superada, ele tenta a volta ao Buriti pelo PSD — um retorno que a imprensa já vem cobrindo como um dos casos mais emblemáticos de "nomes afastados da política tentando se eleger em 2026", ao lado de figuras como Eduardo Cunha e José Dirceu em outros estados. É um ângulo rico para explorar como o eleitorado do DF, quinze anos depois, está reagindo a essa candidatura — e o que os números atuais (20% no estimulado, tecnicamente competitivo num eventual segundo turno) já sugerem sobre isso.
Grass e a terceira via
Fechando o pelotão competitivo está Leandro Grass, oficializado candidato do PT em convenção e com Dora Gomes — ligada a pautas de direitos civis e com trânsito no setor empresarial — como vice, depois de negociações frustradas com o PSB. Seu discurso aposta na modernização digital da gestão pública e na promessa de um "governo à altura da capital do país", criticando filas em UPAs, creches e a falta de projetos articulados de desenvolvimento para Brasília. Com 13% no estimulado e crescimento a explorar entre o grande contingente de indecisos, é o nome que mais depende do horário eleitoral e dos debates para deslanchar.
O que observar daqui para a frente
Com quase um quarto do eleitorado ainda indeciso mesmo diante dos nomes apresentados — e quase dois terços sem opinião formada no espontâneo —, a corrida pelo Buriti segue estatisticamente aberta apesar da vantagem confortável de Celina. Os próximos movimentos a acompanhar: os desdobramentos das investigações sobre o BRB e o Banco Master, o desempenho de Arruda em enfrentar o próprio passado nos primeiros embates de campanha, e a capacidade de Grass de consolidar a terceira via antes que o tempo de TV concentre a atenção nos dois primeiros colocados.
Política ao Quadrado
Fontes: pesquisas Quaest (21–24/08/2026), Instituto Opinião (30/07–01/08/2026), Real Time Big Data, Datafolha e Correio Braziliense/Instituto Opinião; Correio Braziliense; Poder360; Metrópoles; CNN Brasil; Gazeta do Povo; O Tempo; Revista Oeste; Rádio Itatiaia; Instituto Monitor da Democracia; Wikipédia (verbete José Roberto Arruda).
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