O Brasil lidera o ranking mundial de ansiedade. A temporada eleitoral de 2026 — com convenções, pesquisas, Trump atacando o governo e o STF no centro da disputa — criou um ambiente de estresse político crônico que cobra um preço real da saúde mental. O doomscrolling é o gatilho mais comum. E a cura não é se alienar — é aprender a consumir política com limites
Esta semana foi pesada. Trump renovou o estado de emergência contra o Brasil e atacou Lula, o STF e o processo de Bolsonaro. As convenções partidárias definem candidatos ao GDF, ao Senado e à Presidência. O tarifaço de 25% está em vigor. As pesquisas eleitorais chegam com resultados que dividem famílias. E tudo isso cabe no feed do celular — disponível 24 horas, sete dias por semana, a um gesto de distância.
Para uma parcela crescente dos brasileiros, esse cenário não é apenas informativo. É adoecedor.
As eleições no Brasil têm um efeito que vai muito além das urnas. A cada dois anos, algo muda no ar. As conversas ficam mais intensas, o noticiário toma conta da rotina, as redes sociais parecem zonas de guerra, e muita gente começa a sentir um peso que não sabe explicar. É ansiedade — uma ansiedade coletiva que nasce do futuro incerto, das expectativas e da sensação de que tudo pode mudar de repente.
Mas em 2026, o fenômeno ganhou uma escala nova. Não são apenas as eleições de outubro. É a soma de crises simultâneas — tarifaço americano, tensão geopolítica, BRB em reestruturação, inflação acima da meta, eliminação do Brasil na Copa — que torna o noticiário desta temporada excepcionalmente pesado. E o brasileiro, historicamente ansioso, está sentindo o peso.
O país mais ansioso do mundo entra no pico eleitoral
O ponto de partida é um dado que deveria ser mais discutido. Aproximadamente 9% da população brasileira sofre de transtorno de ansiedade, enquanto cerca de 6% lida com depressão — números que colocam o Brasil entre os países com maior prevalência dessas condições no mundo. Em um levantamento da Ipsos-Ipec, sentimentos como tristeza (19%), cansaço (17%) e medo (16%) apareceram com força quando os brasileiros foram questionados sobre o cenário político.
Para os servidores públicos de Brasília — que representam uma fatia enorme dos leitores do Política ao Quadrado — o quadro tem uma dimensão específica e alarmante. O 2º Censo do Poder Judiciário revela que 47,9% dos servidores e servidoras sofrem de ansiedade, 37,4% de estresse e 18,1% fazem uso regular de medicamentos para tratar esses quadros. São quase metade dos servidores do Judiciário convivendo com ansiedade clínica — e o ambiente político desta temporada não ajuda.
Por que a política entra pelo corpo
A conexão entre estresse político e saúde física não é metáfora — é biologia. Do ponto de vista psicológico, a polarização política ativa um mecanismo conhecido como estado permanente de defesa. Quando estamos em alerta contínuo, o corpo produz cortisol e adrenalina para nos proteger de ameaças reais ou percebidas.
O problema é que o sistema imunológico humano não foi desenvolvido para responder a ameaças políticas em tempo real. Quando o cérebro lê sobre Trump atacando o Brasil, sobre Bolsonaro e sobre o tarifaço — tudo no mesmo scroll de dez minutos — o organismo responde como se houvesse uma ameaça física imediata. O coração acelera, os músculos tensionam, o cortisol sobe.
Um estudo publicado na revista Social Science and Medicine encontrou uma associação entre perceber a polarização como crescente e ter 52% mais chances relativas de sintomas depressivos e 57% mais chances relativas de sintomas de ansiedade. Números que deveriam ser lidos devagar.
O nome do problema: doomscrolling
Existe um termo preciso para o comportamento que está no centro dessa epidemia de ansiedade política — e que muita gente pratica sem saber o nome. Doomscrolling é o hábito de rolar compulsivamente o feed das redes sociais e portais de notícias em busca de conteúdos negativos, como tragédias, conflitos e más notícias. Esse comportamento está associado a aumento da ansiedade, do estresse, da insônia e de sintomas depressivos.
Em 2026, com o uso crescente de redes sociais e plataformas de notícias em tempo real, o fenômeno continua altamente relevante, com a necessidade de se manter informado se transformando em uma compulsão que parece fora de controle, alimentada pelos algoritmos das plataformas digitais.
O mecanismo por trás disso é evolutivo — e é exatamente por isso que é tão difícil resistir. O cérebro humano tem uma inclinação natural para prestar mais atenção a ameaças, um mecanismo de sobrevivência herdado de nossos ancestrais. No entanto, o algoritmo das redes sociais potencializa esse instinto, entregando conteúdos cada vez mais alarmantes que mantêm o usuário "preso" à tela.
O doomscrolling pode distorcer a percepção da realidade, fazendo com que o mundo pareça um lugar exclusivamente perigoso e sem solução. Esse viés de negatividade afeta o humor e a capacidade de focar em aspectos positivos e construtivos do cotidiano.
Os sinais de que você passou do limite
Alguns sinais indicam que o consumo de notícias passou de um nível saudável para uma compulsão prejudicial. Preste atenção se você:
Perde a noção do tempo enquanto navega por feeds de notícias. Sente ansiedade, tristeza ou irritação após ler as atualizações. Busca notícias de forma compulsiva mesmo quando deveria focar em outras tarefas. Acorda de madrugada e a primeira coisa que faz é checar o celular. Fica agitado ou irritável quando não consegue checar as novidades. Sente que o mundo está piorando constantemente — e que não há saída.
Se você se reconhece em dois ou mais desses sinais, o consumo de política e notícias já está afetando sua saúde mental — provavelmente há mais tempo do que você percebe.
O ambiente de Brasília: onde tudo se concentra
A capital federal tem um perfil único que amplifica todos esses efeitos. Em Brasília, política não é apenas assunto de cidadão comum — é o ambiente de trabalho da maioria da população economicamente ativa. Servidores, parlamentares, assessores, jornalistas, lobistas, advogados públicos: a cidade respira política vinte e quatro horas por dia.
Em cidades onde todos se conhecem e a política faz parte do cotidiano, essa tensão ganha uma camada extra: divergências políticas deixam de ser abstratas e passam a ter nome, rosto e endereço. Em Brasília, o colega de trabalho pode ser o eleitor do candidato que você não suporta. O vizinho pode ter votado no oposto. A reunião de condomínio pode virar debate eleitoral.
O esgotamento coletivo tornou-se um efeito colateral cada vez mais visível da temporada eleitoral. E o brasiliense, imerso nesse ambiente de forma mais intensa do que qualquer outro brasileiro, paga um preço emocional que raramente é reconhecido ou discutido abertamente.
O que fazer — sem se alienar do mundo
A boa notícia é que a solução não exige ignorar a política ou abandonar as redes sociais. Para quebrar o doomscrolling não é preciso "sumir do mundo", mas sim reorganizar a relação com o mundo. A meta não é ficar menos consciente. É ficar mais capaz.
Estabeleça horários fixos para se informar — em vez de checar as notícias a cada notificação, determine momentos específicos do dia para se informar. Duas janelas de 20 minutos por dia são mais do que suficientes para manter qualquer cidadão bem informado — e incomparavelmente menos danosas do que a exposição contínua.
Desative as notificações — alertas constantes no celular mantêm o cérebro em estado de prontidão. Desabilitar as notificações de aplicativos de notícias e redes sociais devolve a você o controle sobre quando se informar.
Filtre suas fontes — priorize veículos de informação confiáveis e evite perfis que utilizam o sensacionalismo para gerar engajamento. O objetivo não é ignorar os problemas do mundo, mas consumir informação de forma consciente. Dois ou três veículos confiáveis são suficientes — e muito mais eficazes do que doze fontes simultâneas.
Desligue as telas antes de dormir — desligar as telas pelo menos uma hora antes de deitar favorece um sono mais reparador. O noticiário político das 23h não vai melhorar a qualidade das suas decisões de amanhã — mas vai garantidamente piorar a qualidade do seu sono desta noite.
Pratique a substituição consciente — ao perceber o impulso de rolar a tela, tente substituir o gesto por uma atividade física, leitura de um livro ou qualquer tarefa manual que exija foco total no presente.
Delimite as conversas políticas — em família, no trabalho e nas redes, estabeleça para si mesmo um limite de tempo e energia que vai investir em debates políticos. Discutir com quem já tem opinião formada raramente muda algo — e quase sempre cobra um preço emocional alto.
A diferença entre ser cidadão e ser refém da política
Há uma distinção importante que se perde no caos do doomscrolling: ser um cidadão informado e engajado é saudável e necessário. Ser refém do noticiário político — checando o celular a cada dez minutos, perdendo o sono por causa de declarações de Trump ou de pesquisas eleitorais, sentindo ansiedade física ao ver um debate — é adoecimento.
O Brasil vive eleições com o coração acelerado. Não porque as pessoas gostem de política, mas porque entendem, no fundo, que as decisões tomadas ali influenciam diretamente o dia seguinte. É no preço dos alimentos, na segurança, no salário, na aposentadoria, na saúde pública, no custo de vida. Essa percepção é legítima e correta. O problema é quando ela se transforma em estado permanente de alerta — um modo de vida, não um momento de atenção.
A eleição de outubro vai acontecer independentemente de quantas horas você passar no feed hoje. O voto que você vai depositar na urna vai pesar exatamente o mesmo, seja você informado com moderação ou exausto de tanto consumir notícias.
Cuide da sua saúde mental agora. O Brasil de outubro vai precisar de cidadãos lúcidos, descansados e capazes de pensar com clareza — não de eleitores esgotados por meses de doomscrolling.
Política ao Quadrado

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