Após meses de negociação, Washington deu a disputa por encerrada e vai taxar parte das exportações do Brasil. Café, carne e petróleo ficaram de fora. Calçados, etanol, açúcar, máquinas e vestuário estão na lista. CNI estima retração de até 0,6% no PIB. Alckmin cogita Lei da Reciprocidade — e o Planalto quer saber o que os brasileiros vão sentir no bolso
O prazo venceu. As negociações acabaram. E o Brasil vai pagar a conta — literalmente. Na quinta-feira (16/7), o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) confirmou a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre uma lista significativa de produtos brasileiros exportados para o mercado americano. As novas taxas passam a valer a partir da próxima terça-feira, 22 de julho — e o governo federal já anunciou um plano de socorro para os setores mais atingidos.
O anúncio encerra um capítulo de negociações que durou mais de um ano e que o Política ao Quadrado acompanhou desde o início: da abertura da investigação pela Seção 301, em julho de 2025, passando pela audiência pública em Washington no início deste mês, até o prazo legal de 15 de julho — que venceu sem acordo.
Como funciona a tarifa — e o que isso significa na prática
A tarifa de 25% é adicional às alíquotas já existentes. Isso significa que um produto brasileiro que hoje paga 5% de imposto de importação nos EUA passará a pagar 30% — a soma da tarifa regular com os 25% adicionais impostos pelo governo Trump.
O efeito prático é simples: produtos brasileiros ficam mais caros para o consumidor e para as empresas americanas que os importam. Com preços mais altos, parte desses compradores vai buscar fornecedores alternativos — de outros países que não estão sendo taxados no mesmo nível. E é exatamente isso que os exportadores brasileiros mais temem: não apenas perder receita, mas perder espaço permanente num mercado que demorou anos para conquistar.
O que foi poupado — e o que entrou na lista
A boa notícia — se é que se pode chamar assim — é que mais da metade da pauta de exportações do Brasil aos EUA foi preservada da taxação. Carnes, café, óleos e itens de aviação foram poupados da taxação por decisão norte-americana desta vez. A Embraer também respirou aliviada: aeronaves e componentes da aviação civil continuam fora da lista.
Mas a lista do que ficou dentro é extensa e preocupa setores importantes da economia brasileira:
Etanol — um dos pontos centrais da investigação do USTR. O Brasil abandonou o tratamento tarifário recíproco de 2010 e impôs uma tarifa de 18%, desde 2023, sobre o etanol americano, enquanto o etanol brasileiro continua tendo acesso privilegiado ao mercado dos EUA — argumento que Washington usou como justificativa central para a taxação.
Calçados — o setor estava entre os mais ativos nas audiências em Washington, mas não conseguiu a exclusão que buscava. A aplicação desta tarifa adicional reduz significativamente a competitividade do calçado brasileiro nos Estados Unidos e inviabiliza muitas operações que vinham sendo retomadas desde o fim da tarifa adicional de 40%, em fevereiro deste ano, afirmou o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira.
Açúcar orgânico, máquinas agrícolas, papel e vestuário também integram a lista de produtos afetados.
Os números que dimensionam o impacto
O tarifaço não é apenas um problema diplomático — tem consequências econômicas concretas e mensuráveis. Segundo a CNI, cerca de US$ 14,9 bilhões em exportações podem ser afetados, com um efeito estimado de 0,5 a 0,6 ponto percentual de retração no PIB brasileiro em 2026.
Para o setor calçadista especificamente, o impacto é ainda mais severo. A Abicalçados estima uma queda média de 7,1% nas exportações totais de calçados até o fim de 2026, o que representa uma piora de 3,5 pontos percentuais em relação à projeção anterior.
No panorama mais amplo do comércio bilateral, a tendência já vinha se deteriorando antes mesmo desta decisão. No primeiro trimestre de 2026, 20 dos 27 estados brasileiros reduziram suas exportações aos Estados Unidos — e a nova tarifa tende a aprofundar esse quadro.
O dado mais revelador do estado atual da relação comercial entre os dois países: a participação dos EUA nas exportações brasileiras, que era de 12,1% até o ano passado, caiu para 9,4% em 2026. O Brasil já vinha se afastando do mercado americano — e o tarifaço acelera esse movimento.
A resposta do Brasil: plano de socorro e Lei da Reciprocidade
O governo federal não ficou parado. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, foi direto ao anunciar as medidas: "O governo, a partir de agora, tem como prioridade atender e apoiar esses setores por essa injusta, indevida e ilegal tarifação que nos foi imposta."
Entre as ações anunciadas, o governo retomará o programa de apoio aos setores empresariais atingidos — uma espécie de plano de socorro para empresas que podem perder competitividade e contratos no mercado americano com a entrada em vigor das novas taxas.
Mas a resposta mais contundente pode vir pela via legislativa. O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que, a partir de agora, o governo vai estudar formas de aplicar a Lei da Reciprocidade. Aprovada no ano passado pelo Congresso Nacional, a norma estabelece critérios para suspensão de concessões comerciais em resposta a ações, políticas ou práticas unilaterais de outro país que impacte negativamente a competitividade econômica do Brasil.
Em linguagem direta: se os EUA taxam o Brasil, o Brasil pode taxar os EUA de volta — dentro de um arcabouço legal já aprovado pelo Congresso. A aplicação dessa lei seria uma escalada significativa na disputa comercial entre os dois países.
O contexto político que ninguém ignora
A decisão de taxar o Brasil não acontece no vácuo. Ela se insere numa relação bilateral que acumula tensões políticas desde o início do segundo governo Trump — envolvendo o processo do ex-presidente Bolsonaro no Brasil, decisões do Judiciário brasileiro sobre plataformas digitais americanas, a questão do PIX e o alinhamento político do governo Lula com posições que desagradam Washington.
O USTR rejeitou o Brasil como praticante de comércio desleal — mas os bastidores de Washington deixam claro que a disputa vai muito além do etanol e dos calçados. É uma relação bilateral que entrou numa fase de atrito que não se resolve com uma única rodada de negociações.
O governo brasileiro rejeita as justificativas usadas para a taxação e continua defendendo a posição de que as práticas comerciais do Brasil são legítimas e compatíveis com as regras do comércio internacional.
O que muda para o brasiliense
A pergunta que qualquer leitor faz diante de uma notícia assim: isso vai chegar no meu bolso? A resposta, como quase sempre em economia, é: depende — mas há razões para prestar atenção.
Para quem compra produtos importados dos EUA, o impacto direto é limitado, já que as tarifas incidem sobre exportações brasileiras para lá, não sobre importações americanas para cá. Mas os efeitos indiretos podem aparecer: empresas exportadoras que perdem receita no mercado americano podem reduzir produção, demitir funcionários e pressionar a cadeia produtiva interna.
Para o funcionalismo público de Brasília — que depende da arrecadação federal para salários e serviços —, uma retração de 0,5 a 0,6 ponto percentual no PIB significa menos crescimento, menos arrecadação e menos espaço fiscal para o governo. Não é uma crise imediata, mas é um sinal amarelo que o cenário econômico de 2026 ficou mais difícil.
E para quem compra calçados, vestuário ou produtos que usam etanol na cadeia produtiva, os reflexos nos preços internos podem aparecer ao longo dos próximos meses — embora seja cedo para quantificar.
O que vem a seguir
As tarifas entram em vigor em 22 de julho — terça-feira da semana que vem. A partir daí, o governo federal precisa dar respostas concretas aos setores afetados: crédito, incentivos fiscais, apoio à diversificação de mercados e eventual aplicação da Lei da Reciprocidade.
O governo continuará a fomentar uma política de diversificação de mercados para esses produtos — o que, na prática, significa reforçar a busca por compradores na China, na Europa, na América Latina e em outros blocos que possam absorver parte do que deixar de ser vendido para os EUA.
O Política ao Quadrado acompanhou toda a trajetória deste conflito comercial — da investigação da Seção 301 ao prazo que venceu sem acordo — e continuará monitorando os desdobramentos para o Brasil e para Brasília.
Linha do tempo do conflito comercial EUA-Brasil
Julho 2025 — USTR abre investigação contra o Brasil com base na Seção 301
1º de junho 2026 — USTR conclui investigação e propõe tarifa de 25%
3 de junho 2026 — Brasil reage com indignação; PIX declarado fora de negociação
6 e 7 de julho 2026 — Audiência pública em Washington com representantes brasileiros e americanos
15 de julho 2026 — Prazo legal para decisão final de Trump vence sem acordo
16 de julho 2026 — USTR confirma tarifa adicional de 25%; Brasil anuncia plano de socorro
22 de julho 2026 — Tarifas entram em vigor
Política ao Quadrado

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