Quando se fala em saúde dos rins, é comum pensar apenas em situações como pedra nos rins ou dor na região lombar. Mas existe uma condição que merece atenção justamente porque pode não provocar sintomas perceptíveis durante boa parte de sua evolução: a doença renal crônica (DRC).
Segundo o Ministério da Saúde, a doença renal crônica é caracterizada por alterações persistentes na estrutura ou no funcionamento dos rins por pelo menos três meses. Na maior parte do tempo, ela evolui de forma assintomática, o que pode fazer com que o diagnóstico aconteça somente quando a função renal já está comprometida.
O assunto ganhou atenção novamente neste mês depois que o Ministério da Saúde anunciou mudanças na organização do atendimento especializado para pessoas com doença renal crônica no Sistema Único de Saúde (SUS). A estratégia pretende integrar consultas, exames e procedimentos para melhorar o acompanhamento e reduzir a progressão da doença.
Para o paciente, porém, a mensagem mais importante continua sendo a prevenção.
Os rins trabalham o tempo todo
Os rins desempenham funções essenciais para o organismo.
Eles filtram o sangue, ajudam a eliminar resíduos e excesso de água, participam do controle do equilíbrio de líquidos e eletrólitos e também estão envolvidos na regulação da pressão arterial e na produção de hormônios.
Quando a função renal começa a diminuir, o organismo pode inicialmente compensar essa perda. É justamente por isso que uma alteração importante pode existir antes que a pessoa perceba algum sintoma.
Não sentir dor, portanto, não significa necessariamente que os rins estejam funcionando perfeitamente.
Por que a doença pode passar despercebida?
A doença renal crônica geralmente apresenta evolução lenta.
Nas fases iniciais, muitas pessoas não apresentam sintomas claros. Conforme a função dos rins diminui, podem aparecer manifestações como cansaço, alterações urinárias, inchaço e outros sinais, mas eles não são exclusivos de problemas renais e precisam ser avaliados por um profissional de saúde.
Por isso, esperar o aparecimento de sintomas para investigar pode atrasar o diagnóstico.
O acompanhamento periódico é especialmente importante para quem apresenta fatores de risco conhecidos.
Hipertensão e diabetes merecem atenção especial
Entre os principais fatores associados ao desenvolvimento e à progressão da doença renal crônica estão a hipertensão arterial e o diabetes.
As duas condições podem provocar danos aos vasos sanguíneos e, ao longo do tempo, comprometer a função dos rins. O Ministério da Saúde destaca essas doenças entre os principais fatores de risco para a DRC.
Também entram nessa lista fatores como obesidade, doenças cardiovasculares, tabagismo, histórico familiar de doença renal e algumas condições específicas do aparelho urinário.
Isso significa que cuidar da pressão arterial e manter o diabetes controlado também é uma forma de proteger os rins.
Um exame simples pode ajudar a encontrar alterações
Como a doença pode ser silenciosa, os exames têm um papel importante na identificação precoce.
A avaliação pode envolver exames de sangue e de urina, além de outros procedimentos definidos de acordo com a situação clínica do paciente.
Um dos indicadores utilizados é a taxa de filtração glomerular (TFG), calculada a partir de exames laboratoriais e utilizada para avaliar a função dos rins. Alterações persistentes podem indicar doença renal crônica.
Para pessoas com diabetes ou hipertensão, o Ministério da Saúde recomenda acompanhamento periódico da função renal. A linha de cuidado do SUS orienta, para esses grupos, a realização anual de creatinina sérica para cálculo da TFG e avaliações relacionadas à presença de albumina ou proteínas na urina, conforme a condição clínica.
Isso não significa que todo mundo precise sair fazendo exames por conta própria.
A necessidade e a frequência dos exames devem ser definidas durante a avaliação de saúde, considerando os fatores de risco de cada pessoa.
O que a pessoa pode fazer no dia a dia?
A prevenção da doença renal está bastante relacionada ao controle dos fatores de risco.
Manter a pressão arterial acompanhada, controlar adequadamente o diabetes quando presente, adotar uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente, não fumar e cuidar da saúde cardiovascular estão entre as medidas importantes para reduzir riscos.
Outro ponto importante é o uso de medicamentos.
O Ministério da Saúde orienta que o uso crônico de medicamentos seja feito com orientação profissional, com atenção especial a medicamentos que podem afetar os rins em determinadas situações.
Por isso, automedicação e uso prolongado de medicamentos sem acompanhamento não são boas estratégias de prevenção.
E beber água?
A hidratação é importante para o funcionamento do organismo, mas não existe uma quantidade universal de água que possa ser indicada para todas as pessoas.
As necessidades variam de acordo com idade, condições de saúde, alimentação, atividade física, clima e outros fatores.
Para pessoas que já apresentam doença renal ou outras condições específicas, a orientação sobre ingestão de líquidos pode ser diferente e deve ser individualizada pela equipe de saúde.
Ou seja: a ideia de que “quanto mais água, melhor para os rins” não deve ser tratada como uma regra absoluta.
O SUS começa o cuidado perto de casa
No Distrito Federal, assim como no restante do país, a Atenção Primária à Saúde tem papel importante na identificação de pessoas com risco de desenvolver doença renal crônica.
As Unidades Básicas de Saúde podem acompanhar condições como hipertensão e diabetes, avaliar fatores de risco e solicitar ou acompanhar exames conforme a necessidade clínica.
Quando a situação exige atendimento especializado, o paciente pode ser encaminhado para serviços de maior complexidade.
A própria linha de cuidado da Secretaria de Saúde do DF prevê atuação multiprofissional, começando pelas UBS e avançando para unidades especializadas quando necessário.
O que mudou no atendimento do SUS?
Em setembro, o Ministério da Saúde anunciou uma nova organização do cuidado especializado para a doença renal crônica.
A estratégia utiliza as chamadas Ofertas de Cuidados Integrados (OCIs), que reúnem consultas, exames, procedimentos e acompanhamento multiprofissional de acordo com o estágio da doença e as necessidades do paciente.
A proposta é reduzir a fragmentação do atendimento e evitar que o paciente precise passar por diferentes etapas de maneira desconectada.
A iniciativa também inclui ações relacionadas à preparação de pessoas que podem precisar de terapia renal substitutiva no futuro.
Entre janeiro de 2025 e agosto de 2026, segundo o Ministério da Saúde, foram realizadas 62 habilitações de serviços relacionados ao cuidado da doença renal crônica no país, incluindo unidades de hemodiálise, diálise peritoneal e acompanhamento de pacientes antes da necessidade de diálise.
Doença renal não significa automaticamente hemodiálise
Esse é outro ponto importante.
Receber um diagnóstico de doença renal crônica não significa que a pessoa necessariamente precisará fazer hemodiálise.
A doença possui diferentes estágios e o tratamento depende do grau de comprometimento da função renal, da causa e das condições de cada paciente.
Nos estágios iniciais, o acompanhamento pode ser realizado na Atenção Primária, com foco no controle dos fatores de risco e na preservação da função renal. Em estágios mais avançados, o acompanhamento especializado passa a ter papel maior.
O objetivo justamente é identificar a doença o mais cedo possível e retardar sua progressão sempre que isso for possível.
Cinco perguntas para pensar na sua saúde renal
Você sabe se sua pressão arterial está controlada?
Tem diabetes ou histórico familiar de doença renal?
Já fez exames de sangue e urina recentemente, quando indicados pelo seu médico?
Faz acompanhamento regular de alguma doença crônica?
Costuma tomar medicamentos por conta própria ou durante períodos prolongados sem orientação profissional?
As perguntas não substituem uma consulta, mas podem servir como um lembrete de que cuidar dos rins faz parte do cuidado geral com a saúde.
Quando procurar atendimento?
Alterações persistentes na urina, inchaço, cansaço sem explicação ou outros sintomas que causem preocupação devem ser avaliados por um profissional de saúde.
Mas, no caso da doença renal crônica, não é preciso esperar esses sinais aparecerem para conversar com um profissional.
Pessoas com hipertensão, diabetes ou outros fatores de risco podem precisar de acompanhamento específico mesmo quando se sentem bem. A Atenção Primária tem justamente a função de identificar esses riscos e acompanhar o paciente ao longo do tempo.
O melhor momento para cuidar dos rins é antes de eles reclamarem
Os rins não costumam chamar atenção quando estão funcionando bem. E talvez esse seja justamente um dos maiores desafios quando o assunto é saúde renal.
A ausência de dor ou de sintomas não deve ser confundida com ausência de risco.
Controlar doenças como hipertensão e diabetes, manter hábitos saudáveis, evitar o uso inadequado de medicamentos e realizar acompanhamento médico quando indicado são atitudes que ajudam a preservar a função renal.
Com a ampliação do cuidado especializado no SUS, o tema volta ao centro das discussões de saúde. Mas a prevenção continua começando muito antes de uma pessoa precisar de um tratamento complexo.
Cuidar dos rins não é esperar que eles deem sinais. É acompanhar a saúde enquanto ainda está tudo bem.
Política ao Quadrado
0 Comentários